Responsabilidade Social Corporativa (RSC) é uma expressão bastante conhecida, e políticas e práticas de RSC são disseminadas em todo o mundo. Entretanto, seu conceito não é homogêneo, como observa o economista e cientista político francês Michel Doucin. Em artigo para o Fórum Global de Governança Corporativa liderado pelo Banco Mundial e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), Doucin comenta que, na Europa, as definições incluem preocupações sociais e ambientais com as partes interessadas e a visão de que possam servir como selo de qualidade; na China, a intenção é ter na RSC um meio de criar uma sociedade harmoniosa, melhorar a imagem do país e conquistar novos mercados; na Índia, como instrumento para coibir ameaças de agitação pública; e na visão anglo-saxônica, como uma nova forma de abordar os stakeholders, com vistas a conhecer suas expectativas, reduzir riscos de campanhas de difamação e maximizar lucros a longo prazo. Já a definição dada pelo Guia de Responsabilidade Social ISO 26000, que consta do website do nosso Inmetro, diz que:

a responsabilidade social se expressa pelo desejo e pelo propósito das organizações em incorporarem considerações socioambientais em seus processos decisórios e a responsabilizar-se pelos impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente. Isso implica um comportamento ético e transparente que contribua para o desenvolvimento sustentável, que esteja em conformidade com as leis aplicáveis e seja consistente com as normas internacionais de comportamento. Também implica que a responsabilidade social esteja integrada em toda a organização, seja praticada em suas relações e leve em conta os interesses das partes interessadas. 

Por sua vez, o Pacto Global das Nações Unidas introduz o conceito de sustentabilidade social. Em livre tradução do conteúdo disponível no website da ONU:

A sustentabilidade social consiste em identificar e gerenciar os impactos dos negócios, positivos e negativos, nas pessoas. A qualidade dos relacionamentos e do envolvimento de uma empresa com suas partes interessadas é crítica. Direta ou indiretamente, as empresas afetam o que acontece com os empregados, trabalhadores da cadeia de valor, clientes e comunidades locais, e é importante gerenciar os impactos de forma proativa.

Interessante observar que alguns elementos estão presentes em todas essas concepções. A atividade empresarial deve engajar todas as suas partes interessadas como forma de transmitir confiabilidade e transparência, tendo como valiosos subprodutos o fortalecimento da reputação e o impacto positivo nos resultados financeiros, minimamente a médio prazo. Outro dado é que, a cada crise local ou global, as distâncias sociais se ampliam, como analisado pelo também francês Thomas Piketty em seu livro O capital no século XXI. A acrescentar que, em que pesem poucas vozes dissonantes e negacionistas, as mudanças climáticas são agravadas pela ação humana e ampliam as dificuldades sociais. Assim, a relevância da RSC é ainda maior.

No setor de energia elétrica, diretrizes internacionais, leis, regulamentos de financiadores multilaterais, estatais e privados, e políticas e programas voluntários dos empreendedores criaram meios de compensação de impactos sociais dos empreendimentos, atrelados a iniciativas para melhoria de condições de vida das comunidades onde se inserem. Tomando-se como exemplo a implantação de hidrelétricas, as mandatórias indenizações se somam aos reassentamentos dos não-proprietários e a medidas complementares, como de aprimoramento da infraestrutura local ou regional, de construção de escolas e/ou postos de saúde, e a projetos de empreendedorismo e associativismo. Todas essas práticas se desenvolvem conjuntamente com pesquisas e compensações ambientais e estudos antropológicos. Ações semelhantes são desenvolvidas em projetos de parques eólicos, usinas solares de médio a grande porte e outros empreendimentos de infraestrutura em geral. Em todos os casos, o empreendedor busca soluções que possam se sustentar ao longo da vida útil dos empreendimentos. Mais ainda, a não depender mais deles.

energia solar

Na medida em que se amplia o foco na sustentabilidade, simultaneamente ao rápido desenvolvimento tecnológico, agrega-se aos sistemas interligados a geração mais próxima da demanda, especialmente a geração solar distribuída (GSD). Surge então a necessidade de se pensar um novo modelo de RSC.

No Brasil, enquanto se adicionam novas usinas geradoras e milhares de quilômetros de linhas de transmissão ao Sistema Nacional Interligado (SIN), também se expande a GSD – que, segundo a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), vem crescendo em média 230% ao ano desde 2013 no país, tendo passado de 1.000 para 3.000 MW entre o final de 2019 e junho de 2020. Mesmo assim, considerada a população do país, a capacidade total instalada de geração por habitante, em números aproximados, é de 0,8 kW no Brasil, enquanto nos Estados Unidos, na Alemanha e na Austrália essa proporção é de 3,3; 2,5; e  2,0 kW, respectivamente.

Mas não só. Publicação da WWF de 20 de maio de 2020 relata que cerca de um milhão de brasileiros ainda não têm acesso à energia elétrica, principalmente na região Norte. Como consta em matéria:

São cidadãos que, pela falta de eletricidade, não têm acesso também à comunicação, à educação de qualidade e à melhoria na sua produção agroextrativista. Para ter eletricidade poucas horas por dia, emitem gases de efeito estufa muito mais que um cidadão conectado 24 horas à rede convencional. São obrigados a se deslocar até o local em que compram o combustível, regressar às suas comunidades e usar o combustível em motores fósseis. Ou seja, tem-se um custo triplo. Além disso, o descarte do combustível usado não é feito corretamente, sendo despejado, geralmente, em rios ou na terra próxima às casas.

transicao energetica nova era

Nesses tempos de transição energética, nos empreendimentos que agregam mais potência e interconectividade à rede de geração e transmissão, as iniciativas de engajamento e desenvolvimento de comunidades serão tão mais efetivas quão mais efetivo for o convite para participação dos interessados, desde a origem de seus anseios até a concretização dos projetos acordados com o empreendedor. Em relação à GSD, a sugestão seria levar energia a quem não tem, por meio da própria GSD, junto com iniciativas de educação ambiental, comportamento ético e sustentabilidade individual e coletiva – nesse particular, por meio de iniciativas capazes de proporcionar aos beneficiários meios para sua melhoria de qualidade de vida e de obtenção de renda, como já praticado no setor elétrico. Entende-se que essa estratégia poderá contribuir para melhorar a sustentabilidade social, além de agregar à marca selos de qualidade e reputação, entre outros objetivos das diferentes concepções da RSC. Melhor ainda se tudo se iniciar pelas escolas públicas, unindo o ganho para estudantes e educadores à perspectiva de lucros futuros para o empreendedor. Afinal, o estudante de hoje será o consumidor de soluções de energia de amanhã. Melhor ainda, alguém para criá-las ou difundi-las. 

REFERÊNCIAS:

DOUCIN, Michel. Corporate Social Responsibility: Private Self-Regulation is Not Enough

http://documents1.worldbank.org/curated/pt/731511468325284128/pdf/661030BRI0Box365730B00PUBLIC00PSO0240CSR.pdf.

http://www.inmetro.gov.br/qualidade/responsabilidade_social/iso26000.asp.

https://www.unglobalcompact.org/what-is-gc/our-work/social.

PIKETTY, Thomas. Le capital au XXIe siècle. Trad. Mônica Baungarten de Bolle. – 1 ed. – Rio de Janeiro: Intrínseca, 2014.

http://www.absolar.org.br/noticia/noticias-externas/geracao-distribuida-fotovoltaica-cresce-230-ao-ano-no-brasil.html.

Para cálculo da proporção kW instalados por habitante, foram consultadas as páginas na internet das seguintes instituições de cada país:

Brasil: Aneel e IBGE;

EUA: https://www.eia.gov/energyexplained/electricity/electricity-in-the-us-generation-capacity-and-sales.php e

https://www.census.gov/popclock/;

Alemanha: https://www.energy-charts.de/power_inst.htm?year=all&period=annual&type=power_inst e 

https://www.destatis.de/EN/Themes/Society-Environment/Population/Current-Population/_node.html;

Austrália: https://www.aer.gov.au/wholesale-markets/wholesale-statistics/annual-generation-capacity-and-peak-demand-nem e 

https://www.abs.gov.au/AUSSTATS/abs@.nsf/Web+Pages/Population+Clock?opendocument&ref=HPKI.

https://www.wwf.org.br/informacoes/?76422/Acesso-a-energia-com-fontes-renovaveis-em-regioes-remotas-no-brasil.

 Websites acessados em 21 de setembro de 2020.