Por Redação em 07/07/2021

A pergunta do título foi feita em um evento do grupo de estudos Gesel, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em parceria com o site Canal Energia, no último dia 23. E para os três especialistas palestrantes a resposta é “provavelmente não teremos apagão”. O ex-secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético de Minas e Energia, Reive Barros dos Santos, resume que não temos condições análogas às de 2001, quando a capacidade total instalada era de cerca de 75 GW, com predominância de 85% de fontes de geração hidráulicas e participação irrisória de eólicas e outras fontes renováveis.

Atualmente, ele compara, o país tem capacidade total de 176 GW, com uma matriz mais diversa, na qual a geração hidráulica representa 61% e com crescimento importante de eólicas e solares, que já representam 10% da geração e devem continuar aumentando participação. Ele também destaca o aumento da participação de outras fontes, principalmente a de termelétricas a gás.

Os dados do especialista são do Ministério de Minas e energia e foram corroborados pelos demais palestrantes do evento “Apagão 20 anos depois: a história pode se repetir”, cuja íntegra pode ser vista neste link.

Conjuntura está sendo devidamente atacada contra apagão

Outro fator de segurança energética contra a probabilidade de apagão é o aumento das linhas de transmissão, hoje com interligação do Norte com o Sudeste, e do Nordeste com o Norte, algo que não existia em 2001, segundo Reive Barros. “Nós temos linhas de transmissão no patamar de 161 mil km atualmente, e isso nos permite não só otimizar a operação dos reservatórios como também fazer a transferência de energia dos sistemas Sul para Sudeste, Norte para Sudeste, etc.”, salientou.

A comparação do especialista visou demonstrar que, do ponto de vista estrutural, há elementos suficientes para descartar a hipótese de apagão ou racionamento em 2021, mas ele e os demais especialistas alertam para a necessidade de atuar na melhoria da estrutura para os próximos períodos (veja mais a seguir).

Já do ponto de vista conjuntural, Reive Barros pondera que estamos diante de mudanças climáticas constantes e isso pode ser resumido com uma análise rápida da última década, na qual sofremos crises hídricas com constância cada vez menor. “Se separarmos o primeiro ciclo da década (2011 a 2016), perceberemos dois momentos hidrológicos críticos. Porém, de 2016 para cá, percebemos quatro momentos críticos, o que demonstra que a situação climática vem piorando e que não deveremos receber, de fato, chuvas excepcionais que permitam a recomposição rápida dos reservatórios hidráulicos”, avaliou.

Para Luiz Eduardo Barata Ferreira, diretor-geral do ONS até 2020, o setor elétrico brasileiro evoluiu realmente nos últimos anos, principalmente a partir de 2004, quando o modelo da reforma setorial de 1998 foi revisitado em virtude do racionamento de 2001. “Vivemos mudanças profundas na oferta e na demanda nessas duas últimas décadas, quando houve diversificação da matriz e aumento das linhas de transmissão. Mesmo assim, ainda somos bastante dependentes das hidrelétricas e, consequentemente, do clima”, disse.

Para o especialista, isso leva à uma reflexão importante sobre o que os cientistas climáticos vêm nos alertando há anos, mas ainda sofrendo um nível alto de resistência quanto à aceitação desses prognósticos negativos. “Tivemos uma década cheia de crises, começando pela crise da Bacia do São Francisco, quando muitos entenderam erroneamente que era uma situação localizada, no Nordeste. Depois tivemos as crises nas outras regiões, com ápice no Sudeste em 2015, e passamos a conviver constantemente com os reservatórios fechando os períodos de cheia com menos de 50% da capacidade”, disse Barata Ferreira.

Mesmo com esses sinais que mostravam a necessidade de uma discussão profunda do modelo elétrico, ele adverte que foram feitas apenas alterações pontuais, quando era preciso atuar de forma ampla. “Somente em 2017 nós olhamos a questão de forma global e isso ficou resumido na CP MM 33. Então, avalio que o problema conjuntural de hoje se sobrepõe ao problema estrutural, que vem desde a metade da década passada”, disse.

Estrutura versus Conjuntura contra apagão do setor elétrico

A necessidade de diferenciar as condições da estrutura e da conjuntura do sistema elétrico brasileiro foi abordada tanto por Barata Ferreira, quanto por Reive Barros, como pelo professor Doutor do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétricas da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), Dorel Soares Ramos.

Para este último, as medidas conjunturais para evitar um racionamento de energia em 2021 estão sendo adotadas, o que lhe permitiu avaliar, sob diferentes modelos matemáticos, que não devemos sofrer racionamento neste ano. “O Operador Nacional do Sistema está reduzindo devidamente as restrições de vazão para compor reservatórios e aciona a geração termelétrica para suprir essa demanda. A consequência é a elevação de custos, mas isso é obviamente muito melhor do que a falta de energia”, disse.

Segundo ele, o governo também está acionando os mecanismos de importação de energia da Argentina e do Uruguai, o que também leva à avaliação de custos, mas é parte da segurança necessária para o momento. “Além disso, estão sendo acionados os mecanismos de suprimento de combustível, principalmente olhando o gás fornecido pela Bolívia para que as térmicas possam operar seguramente. Outra frente é a de novas ofertas de geração, como o estímulo à antecipação de obras de transmissão e a maior flexibilização de intercâmbio de fornecimento entre as Regiões do país”, disse.

Para ele, o que ainda está tímida e deve ser divulgada em massa e rapidamente é a campanha de conscientização de economia de energia. “Isso não acarreta grandes custos e o consumo da sociedade pode ajudar tremendamente no equilíbrio da demanda”, pontuou Dorel Ramos. Dias depois do evento da Gesel (28.06) o ministro de Minas e Energia pediu o apoio voluntário da sociedade durante pronunciamento em cadeia nacional de rádio de televisão.

Barata Ferreira também avalia a conjuntura positivamente, mas reforça que é preciso manter um trabalho realmente integrado entre o Operador Nacional do Sistema com a sociedade, dado que, como mencionado por ele anteriormente, não devemos ter “ajuda” do clima. “Além disso, poderemos explorar melhor os ventos do segundo semestre, principalmente no Nordeste, onde está localizada a maioria das plantas eólicas”.

Ele também avalia que a questão conjuntural está sendo devidamente atacada, de modo que precisamos agora partir para resolver as questões estruturais, que devem ficar mais complicadas caso o Congresso Federal e o presidente da República aprovarem o que a imprensa tem chamado de ‘jabutis’ na MP de privatização da Eletrobrás.