De acordo com o Balanço Mundial de Energia, publicado em 2020 pela Agência Internacional de Energia (IEA), em 2018, a indústria foi responsável por 38% do consumo de energia, seguida pelos transportes, com 29%, e o uso residencial correspondeu a 21% –  sendo que 87% do total de suprimento de energia mundial foi proveniente de fontes não renováveis.

No Brasil, de acordo com o Balanço Energético Nacional (BEN), também publicado em 2020 pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), a indústria brasileira, em 2019, foi responsável por 30,4% do consumo de energia, os transportes por 32,7% e as residências por 10,3%, sendo que 46% do suprimento total de energia foi proveniente de fontes renováveis.

Ainda sobre as fontes de energia consumidas por estes três setores no Brasil, de acordo com o BEN, 58% da energia consumida em 2019 pelas indústrias brasileiras foi proveniente de fontes renováveis, sendo estes índices de 25% e 66% para transportes e residências, respectivamente.

Conhecer esses dados é fundamental para o planejamento energético nacional e evidencia a necessidade de grande aumento do uso fontes renováveis, tais como biomassa, hidráulica, solar, eólica e hidrogênio verde, assim como sistemas de captura, uso e armazenamento de carbono (Carbon Capture, Use and Storage – CCUS), para um futuro neutro em carbono.

Tendo em vista a disponibilidade de recursos naturais, o Brasil se encontra em uma situação privilegiada sobre as escolhas das tecnologias mais apropriadas para sua transição energética. As fontes renováveis intermitentes (eólica e solar) ganham maior importância na matriz energética nacional e precisamos de um mix de fontes de geração e armazenamento de energia para assegurar a estabilidade do sistema elétrico.

A nossa principal fonte de energia elétrica é a hidráulica, correspondendo a aproximadamente 65% da oferta em 2019, incluindo a importação, de acordo com o BEN.

Novas formas de armazenamento de energia

Os reservatórios das hidrelétricas são nosso grande armazenamento. Entretanto, em decorrência, principalmente, de restrições ambientais e sociais, as hidrelétricas estão perdendo a capacidade de atender à necessidade de armazenamento, uma vez que implantamos grandes usinas hidrelétricas a fio d’água, sem capacidade de armazenamento significativo.

Desta forma, precisamos estudar, planejar e implementar formas de armazenamento de energia, algumas já tradicionais em constante aperfeiçoamento e outras inovadoras em desenvolvimento.

A retomada das usinas hidrelétricas com capacidade de armazenamento deve ser avaliada, tanto por seu potencial de geração de energia renovável e flexibilidade, quanto por demais serviços que podem prestar, como controle de vazão de rios, evitando cheias, promovendo desenvolvimento regional com geração de emprego, melhoria na qualidade de vida e viabilizando atividades econômicas como turismo, navegação, irrigação e piscicultura.

Ainda no campo da energia hidráulica, já utilizada amplamente em outros países e com grande potencial no Brasil, estão as usinas hidrelétricas reversíveis, que contam com reservatórios a montante e a jusante, gerando energia nos horários de maior demanda e bombeando água do reservatório inferior (jusante) para armazenamento no reservatório superior (montante) nos horários de geração excedente de energia.

As baterias e a utilização do hidrogênio verde já são realidade não apenas no uso em transportes, mas também para armazenamento de energia elétrica.

Participei da Semana da Energia Sustentável, na sede da Organização das Nações Unidas em Genebra, de 23 a 27 de novembro de 2020, onde tive a oportunidade de conhecer uma forma inovadora de armazenamento e geração de energia, chamada de Compressed Air Energy Storage – CAES (armazenamento de energia através de ar comprimido) para utilização em larga escala, desenvolvida pela empresa Storelectric Ltd. Apesar de já existirem desde 1978, as novas versões de CAES são mais eficientes, flexíveis e viáveis. A tecnologia consiste em utilizar a energia excedente da rede para comprimir o ar a uma pressão da cerca de 70 bar, que fica armazenado em reservatórios subterrâneos. Quando há demanda por eletricidade, o ar é liberado, gerando energia através de turbinas. A utilização do CAES é indicada próxima dos locais de geração de energia por fontes intermitentes como solar, eólica ou ambas (híbrida), permitindo que seja otimizada a infraestrutura de transmissão destas fontes e contribuir para a estabilidade do sistema.

Tendo em vista questões regulatórias, o tempo necessário para estudo, planejamento, licenciamento e implantação dos projetos de energia e as diversas possibilidades no cenário nacional, entendo que nenhuma tecnologia possa ser descartada, devendo-se analisar a viabilidade de utilização de cada uma delas pelo Setor Elétrico Brasileiro.