Por Redação em 14/07/2020

Os índices de sustentabilidade da B3, bolsa do Brasil, passarão por uma revisão significativa neste ano. Tanto o ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial – quanto o ICO2 – Índice de Carbono Eficiente sofrerão mudanças que os tornarão mais aderentes à realidade dos temas ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança). Em entrevista ao Além da Energia, a superintendente de Sustentabilidade da B3, Gleice Donini conta como serão essas mudanças e seus impactos no mercado.

No cenário desencadeado pela pandemia, Gleice fala também sobre o novo investidor em ações, que está buscando empresas com uma gestão mais estruturada para enfrentar momentos de crise e de olho na sustentabilidade do negócio no longo prazo. “Mais de 80% dos investidores na faixa dos 25 aos 39 anos têm preocupações com as práticas de sustentabilidade das companhias. É a geração que está buscando propósito, tanto ao escolher um trabalho quanto de investir”, conta.

Leia a entrevista na íntegra: 

Qual é a importância dos índices de sustentabilidade da B3, tanto para empresas quanto para investidores?

Uma bolsa de valores tem várias oportunidades de fazer uma conexão entre investidores e empresas sob o aspecto da sustentabilidade, por meio de produtos e serviços. Entre eles, os índices e as emissões de títulos verdes. E estamos reforçando o papel dos índices na revisão do nosso planejamento estratégico.

Como a B3 está tratando o tema da sustentabilidade no seu planejamento?

Isso está dividido em quatro pilares: o primeiro é o de ser uma companhia alinhada às boas práticas de mercado. Ou seja, como atendemos às demandas do mercado em termos de alinhamento às práticas de ESG (sigla em inglês para ambiental, social e governança). O segundo é o papel de indução do mercado nesse tema, ou seja, como trazemos essa discussão para que seja um elemento de aumento da competitividade das empresas  brasileiras, especialmente para a atração de capital estrangeiro, que já está há mais tempo focado nos aspectos ESG. O terceiro é fortalecer o portfólio de produtos que já temos e é nesse pilar que entram os índices. O ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial – completou 15 anos e o ICO2 – Índice de Carbono Eficiente -, 10 anos, neste ano. O quarto pilar é abrir novas frentes de negócios de ESG, que são negócios de impacto e de mercado de carbono.

E como os índices auxiliam na questão do ESG?

Eles servem como um referencial teórico das práticas das companhias e auxiliam os investidores em suas estratégias de investimento. Quando você tem um ETF (sigla para exchange traded funds ou fundos de índice) atrelado a eles, o público consegue comprar cotas dessas empresas com esses referenciais de sustentabilidade.

E para as empresas, qual a importância?

É um referencial de boas práticas, porque para participar, por exemplo, do ISE B3, as companhias precisam responder um questionário que faz a avaliação das suas práticas. Nesse processo, as companhias têm oportunidade de implementar melhorias em suas práticas de gestão de forma ampla, pois afinal, sustentabilidade pode ser traduzida como boas práticas de gestão que garantem o sucesso do negócio no longo prazo. O investidor, com dever fiduciário, está olhando para esses critérios para decidir o seu aporte.

Quais são os destaques da revisão do planejamento estratégico da B3 dentro desse contexto?

Os índices passarão por uma revisão. O questionário do ISE, por exemplo, para 2021, vai ser dividido por setor. Hoje, as empresas convidadas respondem voluntariamente a um questionário de cerca de 330 questões sobre suas práticas, divididos em sete dimensões – Geral, Natureza do Produto, Governança Corporativa, Econômico-Financeira, Social, Ambiental e Mudança do Clima.  A partir do preenchimento do questionário e envio de evidências, as práticas dessas empresas são avaliadas e discutidas pelo Conselho do ISE, que  deliberam a carteira que vai ter vigência no ano seguinte. Atualmente, as empresas de todos os setores respondem o mesmo questionário. A partir do ano que vem, a empresa convidada vai seguir uma trilha de questões que conversam diretamente com as questões materiais para sua gestão. Isso vai facilitar a análise tanto para o investidor, quanto para a empresa, que poderá ter uma visão muito mais detalhada das suas práticas de acordo com a sua área de atuação. Vamos também adicionar ferramentas de big data para capturar informações das companhias para ajudarem nesse processo de decisão e de informações mais relevantes para o próprio investidor.

Como garantir que as empresas prestam informações verdadeiras nesses questionários?

A gente parte do princípio do que o que ela responde, está fazendo na prática, uma vez que elas são listadas, abertas e assumem um compromisso com a transparência das informações. Na B3, sorteamos uma pergunta para cada dimensão do questionário respondido pela empresa e pedimos que envie evidências daquela prática. Com essa análise qualitativa, conseguimos ter uma amostra do que aquilo que a empresa está informando é verdadeiro. Além disso, muitas das práticas precisam estar públicas para que a companhia possa se comprometer com elas. O processo como um todo é também auditado pela KPMG.

Quem é esse investidor de bolsa que está, de fato, mais atento a essas questões de ESG na sua tomada de decisão?

Temos sido muito procurados por casas gestoras de ativos que querem adotar ou já adotam os filtros ESG na avaliação das empresas. Algumas das maiores já estão trabalhando há algum tempo com essa temática e vemos novos players no mercado brasileiro se posicionando dessa forma. Esse movimento está ganhando mais corpo no Brasil nos últimos anos. E isso está diretamente relacionado à percepção de risco do investidor com relação às companhias.

Quando você analisa o investidor na faixa dos 25 aos 39 anos que entrou na bolsa principalmente nos últimos meses, você vê que é a geração que está buscando propósito, tanto ao escolher um trabalho quanto de investir.

O investidor pessoa física também está atento a isso?

Quando se fala de ESG, o investidor está avaliando como as companhias se mantém resilientes a partir das práticas adotadas. Quando você analisa o investidor na faixa dos 25 aos 39 anos que entrou na bolsa principalmente nos últimos meses, você vê que é a geração que está buscando propósito, tanto ao escolher um trabalho quanto de investir. Um estudo da Allianz demonstrou que 77% dos investidores nessa faixa etária têm preocupações com as práticas de sustentabilidade das companhias. Esse investidor vai puxar esse mercado daqui para frente. Pois a partir do momento que você tem essa demanda, as corretoras, as gestoras de ativos começam a se mexer.

O investidor consegue influenciar as empresas?

O investidor é um stakeholder fundamental para a mudança das práticas da Companhias. A partir do momento em que inclui os filtros ESG em suas análises de investimento, promove a mudança na gestão das Companhias.

O ICO2 também sofrerá revisão?

Nesse índice, eram convidadas as empresas do IBrX 50  – índice dos 50 ativos de maior negociabilidade e representatividade do mercado de ações brasileiro – e que têm inventários de gases de efeito estufa. Elas preenchiam uma planilha com essas informações e cruzávamos esses dados com o valor da receita vs emissões para checar a eficiência de carbono e colocar na carteira. Nesse cenário de atenção e promoção de iniciativas que respondam a uma agenda de mudança do clima, vimos a oportunidade de ampliar o convite às empresas do IBrX 100. No mapeamento que fizemos, cerca de 40 empresas já têm inventários de gases de efeito estufa e elas poderiam participar do processo de inclusão no ICO2. Ou seja, será uma carteira mais ampla e muito mais replicável em termos de ETF. O ETF atual do ICO2, o ECOO, é gerido pela pela Blackrock, que no início deste ano enviou uma carta ao mercado se posicionando no sentido de descarbonização do portfólio. Estamos em fase final de aprovação dessas mudanças, que deverão ser comunicadas ao mercado nos próximos dias.

Qual a importância do ICO2 no impulsionamento da transição energética para uma matriz de baixo carbono?

A partir do momento que a gente tem esse produto, estamos impulsionando o mercado. Além do ICO2, temos os green bonds, os CBIO – crédito de descarbonização para o setor de combustíveis – que passaram a ser negociados na Bolsa no fim de abril, destinados às distribuidoras cumprirem suas metas de descarbonização. E no nosso papel de Bolsa, futuramente podemos ser um player importante no mercado de carbono. O Brasil vem estudando proposta de taxação de carbono ou de um mercado. E essa comercialização poderia ser via Bolsa. Além disso, participamos da iniciativa a plataforma Compromisso com o Clima, que disponibiliza créditos de carbono para compradores interessados em fazerem a compensação de carbono por meio de projetos que geram impacto socioambiental positivo.

As empresas participantes do ISE B3, por exemplo, estão trabalhando a sustentabilidade de uma forma estruturada. Isso traz uma percepção que a gestão, de uma forma geral, é mais consistente mesmo em tempos de crise.

Os índices de sustentabilidade vêm performando melhor do que o Ibovespa, isso está ligado a uma perspectiva de longo prazo?

As empresas participantes do ISE B3, por exemplo, estão trabalhando a sustentabilidade de uma forma estruturada. Isso traz uma percepção que a gestão, de uma forma geral, é mais consistente mesmo em tempos de crise. É uma forma de o investidor acompanhar a resiliência das companhias. Além disso, algumas empresas usam o ISE B3 como forma de divulgação para investidores e de atração de capital. E mesmo em tempos de crise, o ISE B3 e o ICO2 têm performado melhor do que o Ibovespa. Isso reforça nossa visão de bom gerenciamento das companhias no longo prazo. Vale destacar que esse comportamento de índices ESG performarem melhor que seus benchmarks, a longo prazo, é uma característica tanto local quanto global.

Um dos temas do ISE é a igualdade de gênero, esse tema vem melhorando ao longo dos anos?

No ISE B3 temos perguntas específicas para diversidade de gênero, tanto na dimensão de governança corporativa, quanto na dimensão social. Com essa revisão, teremos mais luz em alguns desses temas, como diversidade como um todo, não só de gênero. Em alguns setores, por exemplo, pela maior demanda de inovação, de maior conexão com os diferentes públicos, especialmente cliente B2C, teremos uma maior conexão com o tema da diversidade, com contribuição do que ela pode trazer de benefício para o negócio. Nessa revisão, vamos buscar uma visão de melhoria no longo prazo das práticas que estão sendo implementadas. De qualquer forma, vemos um esforço das companhias para implementar programas de uma forma mais abrangente ao longo dos anos.