Por Redação em 19/07/2021

Apesar de a grande maioria das plantas de biogás estar localizada no segmento agropecuário e de a perspectiva de crescimento ser maior na área sucroalcooleira, os aterros sanitários e estações de tratamento de esgoto são os maiores geradores desse gás no Brasil atualmente. E esta é a solução mais interessante que existe para tratamento dos resíduos, segundo a gerente executiva da Associação Brasileira de Biogás (Abiogás), Tamar Roitman.

De acordo com a especialista, a energia gerada por materiais orgânicos, que iriam sobrecarregar os aterros sanitários, é uma das bases da economia circular. “A alternativa reduz o acúmulo de resíduos e minimiza todos os problemas decorrentes disso, como a contaminação do solo e da água, doenças, presença de insetos e roedores, entre outros, gerando uma energia limpa, que não emite gases de efeito estufa”, explica.

Na avaliação do gerente de desenvolvimento de negócios da Área de Gás da ENGIE, Olivier Delprat, o biogás produzido a partir de resíduos de saneamento foi o mais fácil e o de maior escala de desenvolvimento no país até o momento. “No entanto, hoje, as outras formas de substrato estão pouco a pouco ganhando terreno. Os aterros vão ficar saturados e, provavelmente, outros setores serão mais relevantes no futuro”, ressalta.

Até 2030, a Abiogás estima que serão produzidos 30 milhões de m³/dia de biogás. Em geração de energia elétrica, esse volume é equivalente à potência instalada de 2,6 GW. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), o Brasil tem pouco mais de 200 MW instalados com biogás gerado por resíduos urbanos. Este volume está distribuído entre geração centralizada (cerca de 179 MW) e micro e minigeração distribuída (cerca de 21 MW).

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Biogás de aterros sanitários ainda é um desafio

Tamar, contudo, pontua desafios na geração de biogás a partir de resíduos de aterros sanitários. O primeiro é a falta de infraestrutura adequada nos locais onde os materiais são depositados. “Infelizmente, no Brasil, ainda há muitos lixões (locais de descarte de resíduos, sem proteção adequada e sem separação dos materiais). Isso se torna um grande problema urbano e de saúde pública, sem contar que é uma fonte potencial de geração de energia sendo desperdiçada”, afirma.

Porém, vale destacar que a Política Nacional de Resíduos sólidos (Lei 12305/2010), que estabelece as diretrizes acerca da gestão de resíduos, abre novas janelas de oportunidade ao mercado de biogás, uma vez que os materiais potencialmente contaminantes precisarão ser encaminhados para destinação ambientalmente adequada. Outro detlhe importante é que o novo Marco Legal do Saneamento deverá atrair investimentos privados para esse setor.

A maior parte das plantas de biogás em aterros sanitários é operada pela iniciativa privada atualmente e o regime de operação difere em alguns casos. “Há modelos nos quais a concessionária opera a planta de geração de biogás. Em outros, esse trabalho é feito por outra empresa. Já em algumas poucas localidades, a operação é do município”, diz Tamar.

Entre as dificuldades de geração de biogás nesse setor, Tamar também cita a falta de coleta seletiva, o que faz com que resíduos diversos, como materiais contaminados, se misturem ao lixo orgânico. “Com isso, é necessária uma etapa extra para que o biogás atenda às especificações”, diz ela. “Isso tem feito com que o biogás gerado em aterros, embora resolva um grave problema urbano, seja o mais complexo de ser tratado”, explica.

O problema dos contaminantes nos aterros

O engenheiro de projetos e P&D da Geo Energética, Alysson Oliveira, explica que resíduos diferentes produzem contaminantes distintos. “Cada matéria prima gera uma quantidade e uma qualidade de biometano diferente. No caso da vinhaça, por exemplo, o biogás produzido tem menos metano e mais enxofre, que é um contaminante. Já no caso de resíduos da suinocultura, não há tanto enxofre. Porém, nos aterros, temos um composto chamado siloxano, que é um contaminante bem complexo de remover”, detalha. O desafio, segundo ele, é fazer com que o biogás de diferentes origens chegue à mesma especificação.

Oliveira diz que a falta de separação dos resíduos, que deveria ser feita por meio de programas de coleta seletiva, afeta a qualidade do produto final e por isso é preciso investir em estratégias para descontaminação, de forma que o gás resultante chegue à especificação determinada pela Agência Nacional de Petróleo (ANP). Ele menciona ainda que qualquer aterro produz gases, e os gases costumam ser inflamáveis. “Assim, é essencial que exista uma estrutura para captação, por questões de segurança. Esta não é uma situação ideal, pois esses gases poderiam ser melhor aproveitados para geração de energia”, esclarece ele.

Atualmente cerca de 40% do lixo produzido no Brasil é destinado aos lixões, aterros controlados e aterros que não capturam metano ou fazem isso de maneira inadequada. Somente 50% do metano produzido pelos resíduos urbanos é capturado, sendo que o restante vai para a atmosfera, onde é 25 vezes mais nocivo do que o CO2.