Por Redação em 18/01/2021

De acordo com Davi Bomtempo, gerente-executivo de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Confederação Nacional da Indústria (CNI), as empresas do Brasil têm buscado transformar os desafios da agenda da sustentabilidade em oportunidades em novos negócios que utilizem os recursos naturais de forma mais racional, eficiente e que contribua para o uso sustentável e a conservação dos ecossistemas.

“O desenvolvimento econômico deve estar conciliado à conservação ambiental”, afirma, em entrevista ao Além da Energia. Para Bomtempo, o fortalecimento da agenda de sustentabilidade no Brasil é fundamental para o sucesso das tratativas internacionais.

“Em especial nas empresas, a agenda ambiental é uma estratégia para viabilizar o acesso a financiamentos via empréstimos e modalidades de negócios inovadores”, observa. 

Como se encaixam, no cenário de pandemia da Covid-19, as questões de meio ambiente e sustentabilidade?

A pandemia tem chamado a sociedade para repensar alguns aspectos sobre sustentabilidade. Alguns países já anunciaram sobre como planejam retomar a economia frente a esse cenário. Recentemente, foi assinado o Acordo de livre comércio entre o Mercosul e a União Europeia. O Acordo possui um capítulo específico para tratar as questões relativas ao desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, o fortalecimento da agenda de sustentabilidade no Brasil é fundamental para o sucesso nessas tratativas internacionais. Em especial nas empresas, a agenda ambiental é uma estratégia para viabilizar o acesso a financiamentos via empréstimos e modalidades de negócios inovadores. O mercado já prioriza os investimentos sustentáveis, pois estes apresentam maior resiliência. Além disso, as análises conhecidas como ESG, que avaliam os aspectos ambiental, social e de governança das empresas, têm ganhado força em todo o mundo.

A CNI desdobrou o tema de meio ambiente e sustentabilidade em quatro eixos. É possível um detalhamento desses pilares?

Sim. No caso do uso dos recursos naturais, temos algumas prioridades de atuação estratégica, como por exemplo, a regulamentação dos instrumentos econômicos da Política Nacional de Resíduos Sólidos, a regulamentação da cobrança pelo uso da água e o estímulo à ampliação do uso econômico e sustentável da biodiversidade e dos recursos florestais.

Para a economia de baixo carbono, temos trabalhado para avaliar os impactos da precificação de carbono na competitividade da indústria, na promoção da inovação para o aumento da eficiência nas emissões de gases de efeito estufa e promoção e estímulo da eficiência energética na indústria.

No que diz respeito ao licenciamento ambiental, nossas principais estratégias são a aprovação de norma nacional para o assunto, a regulamentação do marco legal do licenciamento e o estímulo ao uso de instrumentos de planejamento para orientar e agilizar o licenciamento ambiental.

Por fim, quanto ao saneamento básico, o entendimento é que a participação do setor privado nesses serviços é estratégica para viabilizar a universalização, bem como para solucionar o problema do lixo, sobretudo agora que o setor público tem dificuldades para realizar investimentos.

Em setembro, durante o XIV briefing diplomático, você afirmou que o aumento da competitividade da indústria brasileira passa necessariamente pela agenda de meio ambiente e sustentabilidade. Como?

O mundo tem demandado cada vez mais produtos e serviços com menor impacto ao meio ambiente, fazendo com que a reputação das empresas seja cada vez mais atrelada à forma como se lida com as questões socioambientais. É importante trazer algumas questões internacionais que enfatizam a importância da agenda ambiental estar inserida nas estratégias das empresas: a solicitação formal do Brasil para tornar-se membro da OCDE, o compromisso da Comissão Europeia para enfrentar os desafios relacionados ao meio ambiente por meio do Green Deal e o aumento no número de queimadas e desmatamento na Amazônia, o que tem elevado o interesse e a influência internacional no cenário ambiental brasileiro.  Essas iniciativas, se não forem bem equacionadas na esfera internacional, podem causar impactos nas exportações de produtos e na redução do valor das empresas listadas em bolsa de valores, promovendo desincentivos a investimentos em novos negócios em nosso país, dada a falta de gestão de risco dos aspectos socioambientais.

A preservação é um fator-chave para o crescimento econômico e a sustentabilidade no Brasil? Por quê?

Acho que podemos utilizar a palavra conservação. O desenvolvimento econômico deve estar conciliado à conservação ambiental. Os países devem buscar a melhoria do padrão de vida da sociedade, mas devem garantir que as próximas gerações consigam atingir esse padrão. Para isso, o uso eficiente dos nossos recursos naturais é fundamental. É importante destacar que a conservação pode estimular a atividade econômica, criando empregos, incentivando o uso de fontes renováveis, gerando renda e riquezas e melhorando a qualidade de vida da população.

O setor industrial no Brasil conta com uma agenda ambiental? Quais ações concretas o setor industrial no Brasil vem desenvolvendo visando o melhor uso dos recursos naturais?

As empresas têm buscado maior eficiência e relações de qualidade com as partes envolvidas, com o objetivo de reduzir riscos e custos, além de transformar os desafios da agenda da sustentabilidade em oportunidades em novos negócios que utilizem os recursos naturais de forma mais racional, eficiente e que contribua para o uso sustentável e a conservação dos ecossistemas.

Alguns exemplos de ações prioritárias da CNI no que se refere ao uso dos recursos naturais e meio ambiente são o desenvolvimento de um plano estratégico para a Agenda de Bioeconomia no Brasil, o incentivo ao uso de fontes de energias renováveis mais competitivas, a promoção da inovação para o aumento da eficiência no uso da energia e na gestão de emissões de gases de efeito estufa e de ações alinhadas aos princípios da economia circular e da eficiência no uso dos recursos.