Por Redação em 28/05/2021

A Climate Bonds Initiative (CBI) é uma organização internacional sem fins lucrativos, com sede em Londres e foco na mobilização de mercados de capitais globais para soluções de baixo carbono. Em outras palavras, ela certifica títulos verdes e considera isto uma maneira de direcionar investimentos em diversos setores para apoiar o Acordo de Paris.

Recentemente, a CBI tornou as usinas hidrelétricas elegíveis à captação de financiamentos verdes e a novidade tende a movimentar o mercado nos próximos anos, como conta Thatyanne Gasparotto, Diretora Adjunta para Regiões da CBI. Ela supervisiona os programas regionais para América Latina, países membros da ASEAN e China, além de promover o fomento do mercado de finanças sustentáveis globalmente. “A CBI surgiu em 2009 para atender uma necessidade global de financiar a economia de baixo carbono. O nosso intuito é contribuir fortemente para reduzir o aquecimento global entre 1,5 e 2 graus Celsius e atuamos sob a estratégia de estabelecer critérios e métricas para financiamento verde em todos os setores da economia”, diz.

Em entrevista ao Além da Energia, ela detalha como os setores produtivos estão avançando na captação de investimentos verdes mundialmente, alcançando a soma de mais de US$ 1 trilhão em investimentos. No Brasil, os aportes também avançam, e devem ganhar ainda mais força com a recém-validada elegibilidade das hidrelétricas.

 

Quais são os setores econômicos abrangidos pela CBI e como eles têm evoluído?

Mundialmente, são Energia, Edificações, Transportes, Água, Resíduos, Uso da Terra, Indústria, TI e alguns outros setores nos quais ainda não tivemos alocação de recursos. O mercado começou com alguns poucos títulos verdes atrelados à energia renovável, mais especificamente energias solar e eólica, e expandiu para outros segmentos, além de uma diversificação em energia, incluindo critérios para energia marítima, geotérmica e, mais recentemente, hidrelétricas.

Como os recursos estão divididos?

Há diferença entre a proporção de títulos verdes por mercados no Brasil e no mundo. Aqui, tivemos US$ 8,6 bilhões emitidos em títulos verdes de 2015 a março de 2021. Desse total, 42% foram direcionados ao setor de energia elétrica (basicamente solar e eólica). Pela força da nossa agropecuária, este foi o segundo mercado que mais recebeu recursos (34%). Depois temos os setores de transportes (9%), indústria (6%) e edificações (4%), além dos demais já citados em porcentagens menores de representatividade.

Essas proporções são semelhantes mundialmente?

Não. No mundo, o setor de Energia é prevalente também, tendo recebido 35% do mais de US$ 1 trilhão já emitidos em títulos verdes entre 2013 e 2020. Porém, ele é seguido mais de perto pelo mercado de Edificações (27%). Os aportes em títulos verdes de Transportes representam 19% do total e os setores relacionados ao uso da Água, outros 10%. Em seguida vem o Uso da Terra, com 3%, e os demais nichos citados têm baixa representatividade.

Com a elegibilidade das hidrelétricas, o financiamento verde deve ampliar a vantagem do setor de energia?

Acreditamos que sim, principalmente no Brasil, dada a representatividade dessa matriz. Mas os critérios para financiamento verde de hidrelétricas foram publicados recentemente, em março de 2021, e ainda serão testados pelo mercado, principalmente porque o processo tem várias especificidades.

Quais são as especificidades para a captação de títulos verdes para hidrelétricas?

Há duas rotas: uma é para as hidrelétricas que ficaram operacionais antes de 2020 e a outra para as que foram acionadas depois. Em ambos os casos, alguns critérios precisam se combinar e o que muda é o nível de exigência.

Para o primeiro grupo (operacional antes de 2020) as usinas geradoras, por exemplo, precisam ter pegada de carbono abaixo de 100 gramas de CO2 equivalente por kilowatt hora ou densidade elétrica superior a 5 Watt por metro quadrado.

Já no segundo grupo, elas precisam cumprir o dobro desses índices, ou seja: pegada de carbono abaixo de 50 gramas de CO2 equivalente por kilowatt hora ou densidade elétrica superior a 10 Watts por metro quadrado.

É muito importante também que os projetos, de todos os setores, tenham planos de adaptação e resiliência. Isso é bem latente nas hidrelétricas e por isso foi preciso dar um tratamento diferenciado a elas em relação às energias eólica e solar.

Você pode detalhar essa diferenciação das hidrelétricas?

A geração hidrelétrica depende de água e temos um cenário de aumento de temperatura, ocasionando mudança de padrão de precipitação e eventos extremos, como secas prolongadas, chuvas em locais fora das bacias hidrográficas, etc. Em 2015, por exemplo, tivemos uma seca em São Paulo que foi multifacetária, ocasionando falta de água para agricultura, indústria e residências. Prevendo novos casos como esse, a elegibilidade das hidrelétricas precisa considerar que elas tenham um bom plano de adaptação e resiliência.

Há também questões de planejamento de projeto de infraestrutura no geral, incluindo aspectos sociais nas construções de grandes projetos, transparência, e outras regras de compliance e governança corporativa.

Já é possível avaliar o quão sustentáveis são as hidrelétricas?

Como são critérios novos, começaremos agora a ter clareza da elegibilidade para as hidrelétricas para uma rotulagem nesse sentido. Cada um dos projetos hidrelétricos é avaliado de acordo com critérios de mitigação em termos de adaptação e resiliência. Para obtenção da certificação, a operação passa por um processo de revisão externa, como se fosse uma auditoria.

Dos demais setores produtivos, quais são os mais promissores no Brasil?

Vemos o setor de Transportes como bastante potencial. E isso não só aqui, como no mundo, conforme é possível constatar no nosso relatório anual (Análise de Mercado – State of the Market). O estudo mostra, em suma, que esse mercado é o que apresenta maior oportunidade de finanças sustentáveis ainda não aplicadas.

Como são os critérios de elegibilidade no setor de transportes?

Primeiro é preciso identificar o ativo. Há, atualmente, três tipos predominantes: Sistemas Eletrificados (ônibus, trens elétricos, estações de abastecimento e toda infraestrutura de geração para sistemas eletrificados), Transporte Urbano (metrô, ônibus, Vlts, etc.) e Ferrovias, tanto como transporte de passageiros quanto como modal logístico. No nicho das ferrovias, ainda não há necessidade de eletrificação, mas tudo indica que esse será o caminho.

As rodovias estão excluídas, pois a CBI entende que há outras alternativas para o setor de transporte que são menos poluentes e alinhados ao cenário de 2 graus Célsius.

A taxonomia no transporte ocorre então com um primeiro olhar por classe de ativo e o que está sendo financiado. Por exemplo: é possível incluir o financiamento de um sistema de painéis solares para alimentar determinada infraestrutura rodoviária, como pedágio, semáforo, câmeras de vigilância, etc. Nesse caso, a elegibilidade é da energia e não do transporte.

O setor da construção (Edificações) também deve ampliar representatividade na captação de recursos verdes no Brasil, a exemplo do mundo?

Sim. Mundialmente é o segundo maior destino de recursos e o Brasil está descolado disso, até em comparação a alguns países da América Latina, como Colômbia e Chile. Em relação à Europa e América do Norte, acreditamos que a maior participação ocorre pelo clima frio, pois os aquecimentos demandam muita energia e era natural que se procurassem formas de reduzir esse consumo. Mas tirando essa particularidade, acreditamos que as iniciativas verdes nas construções aumentarão no Brasil, até porque as nossas edificações também consomem bastante energia (ar condicionado nas cidades quentes, por exemplo).

E quais são os critérios para o setor de construção?

Temos distinção para construções comerciais e residenciais, com base em um cálculo de emissões e uma análise de benchmarking. Em alguns lugares, como no Brasil, há predominância de certificações internacionais, como o LEED (Leadership in Energy and Environmental Design), que mensura as emissões. Nesse caso, a CBI aceita no mínimo a certificação de nível LEED Gold ou Platinum, junto com a meta de 30% de melhoria dos níveis de emissão em um período pré-determinado. Além disso, tem a questão do benchmarking, na qual avaliamos se a construção está entre as 15% mais eficientes do país.