Por Redação em 05/04/2021

A agenda da sustentabilidade só vai avançar se houver líderes engajados em promovê-la. Quem afirma é Sonia Consiglio Favaretto, chair do Conselho Consultivo da Global Reporting Initiative (GRI) Brasil e vice-presidente do Conselho Técnico Consultivo AL do CDP, duas organizações engajadas em que as empresas entendam e comuniquem seus impactos no meio ambiente, incluindo as mudanças climáticas.

Jornalista de formação, Sonia, que escreve uma coluna sobre sustentabilidade no Valor  Investe, lembra que nesse contexto a comunicação é fundamental para que as empresas tracem uma estratégia para iniciarem – ou darem continuidade – à sua jornada de sustentabilidade. “A comunicação é fundamental porque é preciso traçar uma estratégia para falar com os diferentes públicos de interesse da corporação de forma que eles entendam”, afirma.

Nessa entrevista ao Além da Energia, Sonia traça um panorama da sustentabilidade empresarial no Brasil e no mundo, fala dos atributos da liderança sustentável e os caminhos para se chegar lá. Leia a entrevista na íntegra:

Qual é o papel dos líderes na jornada de sustentabilidade das empresas?

Liderança é fundamental para o avanço dessa agenda. Ela dá apoio institucional, ritmo, inspira e dá profundidade e perenidade às ações. Como sustentabilidade é uma agenda de transformação, ter um líder inspirador é bastante importante. Liderança e entendimento são fatores essenciais para a evolução do tema. E, como essa discussão vem ganhando força, a liderança foi para a ponta da frente.

Como se dá esse entendimento necessário para o avanço dessa agenda?

A liderança tem que entender o que é a agenda EESG, mas esse entendimento passa por todos os níveis. Nesse contexto, a comunicação é fundamental porque é preciso traçar uma estratégia para falar com os diferentes públicos de interesse da corporação de forma efetiva, que eles entendam.

Por onde começa a jornada de sustentabilidade de cada empresa? Pela liderança?

Primeiro, é preciso entender a verdade de cada empresa. O mundo ideal é que parta da liderança. Mas muitas vezes isso tem partido da área de Relações com Investidores, porque eles estão sendo cobrados pelos investidores em terem um posicionamento. E também,  cada vez mais os Conselhos (de Administração) estão preocupados com esse tema. A BlackRock divulgou recentemente um paper sugerindo que todo o Conselho entenda de mudança do clima – e não tenha apenas uma pessoa voltada para isso.

A jornada de sustentabilidade varia de acordo com a área de atuação da empresa?

Empresas que têm impacto ambiental direto já estão olhando para essas questões em menor ou maior grau há muito tempo, pois elas estão na raiz do negócio. Se é uma prestadora de serviços, pode ter um pouco mais de desafio para entender o que faz sentido e como introduzir o conceito EESG no seu dia a dia. Mas todas as empresas de todos os setores estão se movimentando nesta direção.

A agenda da sustentabilidade então também passa pela sustentabilidade financeira?

É uma nova sustentabilidade financeira. É óbvio que as empresas precisam ser lucrativas, mas de uns anos para cá estamos vendo a discussão de que tipo de retorno elas têm que dar. E é um retorno financeiro que chega olhando riscos e oportunidades sociais e ambientais.

Quais são as outras forças que fazem essa agenda avançar?

Basicamente, são quatro. Primeiro, a força do consumidor – muito forte na Europa, onde o consumidor consegue exercer o poder de pressão via compra porque tem outras questões equalizadas. Outra são os funcionários, ou seja, os talentos vêm escolhendo as empresas onde eles trabalham de acordo com essa agenda. Regulação, e o investidor. No contexto brasileiro, o investidor tem feito essa agenda se mover bastante, principalmente nos últimos cinco anos. Numa das empresas que trabalhei, isso ficou muito claro quando a agenda de sustentabilidade ganhou outra relevância  para a alta liderança quando um investidor europeu pediu uma reunião para falar sobre esse tema.

Como estão os líderes brasileiros em relação a essa jornada de sustentabilidade?

No Brasil e no mundo, a pandemia foi um grande divisor de águas. As empresas brasileiras já vinham sendo protagonistas nessa agenda, mas em 2020 ficou mais claro que o mundo é interligado. Que uma questão de saúde, social, relacionada ao meio ambiente tem impacto em toda a economia. E aí vimos muitos CEOs fazendo coalizões e assumindo compromissos públicos. Acho que as lideranças brasileiras responderam bem.

Essa visão de um mundo interconectado permanece após a chegada das vacinas?

Todas as tendências que lemos para 2021 e os próximos anos mostram que essa crise é diferente da de 2008 do ponto de vista da recuperação. Aquela foi uma crise puramente financeira , então a  retomada verde foi aquém das expectativas. Essa crise é de outra natureza e todos falam na necessidade de uma recuperação que leve em conta a agenda da sustentabilidade. Eu acredito que não tem mais ponto de retorno.

Quais são os atributos que o líder sustentável precisa ter no contexto de uma recuperação verde?

De acordo com uma pesquisa do Pacto Global da ONU e Russell Reynolds esses atributos são quatro: pensamento multinível, inclusão de stakeholders, pensamento de longo prazo com metas bem definidas e inovação disruptiva. No contexto da inovação, por exemplo, é quando falamos que não podemos ter soluções do século XX para desafios do século XXI. Uma pesquisa mais recente, da Accenture e do Fórum de Líderes Jovens do Fórum Econômico Mundial, traz cinco atributos, acrescentando àqueles emoção, intuição, missão e propósito e intelecto e percepção. Ou seja, muitos atributos tem a ver com o lado pessoal. Portanto esse novo líder tem que ter essas competências humanas.

Na sua visão, as lideranças femininas tendem a ter mais essas competências?

Esse é um tipo de viés inconsciente, quando eu associo um determinado tipo de competência a um gênero. Felizmente estamos rompendo isso no mundo atual, quando falamos de diversidade. Independente de gênero, os líderes têm que ter aquelas características. As próprias lideranças precisam olhar para os seus vieses inconscientes e inspirar seus times. Importante mencionar que todos temos esses vieses. Talvez, em alguma medida, de fato lideranças femininas sejam associadas a essas competências, porque esses atributos sempre foram mais exercitados pelas mulheres.

Que tipo de análise tem de ser feita para olhar para esses vieses?

Primeiro, é entender o que são esses vieses e que todo mundo, em alguma medida, os tem. Depois, identificar onde e quando esses vieses se manifestam e confrontá-los. A partir daí, é preciso discutir essas questões com o time.

Como é a jornada de sustentabilidade EESG?

Ela tem oito passos. Primeiro é preciso engajar a liderança. Depois, definir posicionamento e governança, envolver o público interno, inventariar as práticas já adotadas, priorizar uma agenda de ações, definindo indicadores, compromissos, etc, elaborar uma política de sustentabilidade, engajar os stakeholders e prestar contas do que está sendo feito. Esses passos nem sempre vão ser sequenciais ou serão todos dados ao mesmo tempo, mas é importante entender por onde a jornada passa.

Essa agenda é só para grandes empresas?

Nunca foi só para grandes empresas. Estamos falando de uma questão de lógica e isso independe do tamanho da empresa. Como o resultado financeiro vai depender cada vez mais de uma agenda social e ambiental, é preciso que as empresas transformem seu modelo de negócios, seja ela grande ou pequena.

E como uma pequena empresa pode fazer isso?

O pulo do gato é entender o que é sustentabilidade no negócio da pequena empresa. Cada uma terá sua verdade. Além disso, muitas vezes essas empresas acabam sendo envolvidas pela cadeia de uma grande empresa. Por exemplo, grandes empresas que respondem ao CDP – iniciativa que pede que empresas publiquem suas informações ambientais anualmente – acabam exigindo que seus fornecedores levem em conta questões ambientais e sociais em seus negócios. Uma pequena empresa que faz negócios com a Europa, se não levar em conta essas questões, simplesmente não fecha negócios. Ou seja, sustentabilidade é cada vez mais uma condição para competir e não só um diferencial competitivo.