Por Redação em 16/09/2020

Com a ascensão do ESG (princípio que prevê maiores investimentos em empresas com responsabilidade ambiental, social e de governança), um dilema ganha espaço. Alguns acreditam que, ao optar por empresas socialmente responsáveis, os investidores deixam de focar naquelas que poderiam dar retornos maiores. Para Fabio Alperowitch, portfolio manager da Fama Investimentos, entretanto, esse “é um dilema falso”.

“Não existe um ou outro. As empresas que têm melhor responsabilidade social são as que dão o melhor retorno”, afirmou Alperowitch, em entrevista exclusiva ao Além da Energia.

Esse falso dilema, sustenta, é um dos empecilhos à maior difusão dos investimentos seguindo os valores ESG no Brasil. “Enquanto as pessoas acharem que ESG é fazer o bem sem ter retorno, vão dedicar uma parte pequena ou nenhuma do seu portfólio a ele”, diz.

Superficialidade do debate é uma das travas ao ESG no Brasil

Além disso, afirma, há a superficialidade com que o assunto é debatido. “São temas muito complexos, sistêmicos, e o mercado pensa que se trata de emissões de CO2 e empoderamento feminino. Não que esses sejam temas irrelevantes, mas sustentabilidade vai além disso”, afirma.

investimento

E, na corrida do ESG, as empresas que buscam se adequar a estes parâmetros para se tornarem elegíveis a receber investimentos estão mais adiantadas do que os investidores.

“As empresas estão bem mais avançadas. Tanto dentro quanto fora da Bolsa, existe essa preocupação delas há anos”, explica. O mercado, contudo, deixou os tópicos caros ao ESG de lado por anos. Segundo Alperowitch, isso se deveu a uma politização dos temas, apontados como de esquerda, enquanto o mercado se alinha mais à direita.

Investimentos ESG também são para os pequenos

Mas nem só de grandes fundos é feito o  ESG. Alperowitch defende que pequenos investidores também devem considerar esses valores em conta na hora de fazer aportes em empresas. “Pessoas físicas deveriam fazer seus investimentos alinhados com suas maneiras de ver o mundo. A pessoa que é vegana não pode investir em um açougue”, exemplifica.

Avaliar o trabalho feito pelas empresas, no entanto, não é tarefa fácil. De acordo com Alperowitch, por serem questões qualitativas, difíceis de serem quantificadas, “as agências de rating têm dificuldade enorme de fazer o trabalho de forma adequada”. Para o especialista, é fácil identificar as empresas que estão nos “extremos” do ESG. De um lado, o grupo de empresas que acha o tema irrelevante e, consequentemente, sequer trata do assunto.

Do outro, as que falam de sustentabilidade e adotam essas práticas há anos. O problema, alerta, está no meio. “Nesse ‘meião’, você não sabe se de fato as empresas acordaram para uma agenda nova ou se foi apenas por entenderem que é uma boa oportunidade, fazendo o chamado greenwashing”, observou.

ESG é processo, e não produto

Assim, surge a questão de como avaliar e se as agências de rating ESG vão substituir as tradicionais agências de classificação de risco. Mas o executivo não acredita que este movimento vá acontecer. “As agências tradicionais tratam de capacidade de pagamento e elas deveriam, sim, adicionar aspectos de ESG nas suas análises. Acho que elas vão acabar ampliando o escopo”, afirmou.

Outro desafio é entender que ESG não é produto, mas processo, de acordo com Alperowitch. Essa mudança de pensamento pode fazer com que algumas empresas deixem de ser consideradas ESG. “A Tesla, por exemplo, faz carro elétrico. Então, do ponto de vista energético e ambiental, é maravilhoso. Mas o modo como ela é administrada, com um monte de controvérsia e falta de respeito com o lado social, a torna uma empresa, ao meu ponto de vista, não ESG”, opina. Ou seja, não basta analisar se o produto de uma determinada empresa é ambientalmente ou socialmente correto. “O que importa é o que ela faz da porta para dentro”, resume.