Por Redação em 28/04/2021

Estados e regiões do país devem usar suas diferentes vantagens competitivas para trazer os investimentos que viabilizem a expansão das diferentes fontes de energia. A avaliação é do CEO da Natural Energia, empresa de desenvolvimento de projetos de energia, Ricardo Martins. “Precisa usar corretamente as fontes de acordo com as vocações de cada região”, avalia o executivo em entrevista ao Além da Energia.

Fundada em 2012, a Natural Energia é uma empresa que atua no desenvolvimento, operação e manutenção de projetos de energia renovável e gás natural, com presença nas regiões Nordeste, Sul e Sudeste do Brasil.

Nessa entrevista, Martins traça um panorama para as fontes eólica, solar e gás natural no Brasil e quais são as oportunidades trazidas por cada uma dessas fontes para o crescimento da economia brasileira, seja com a atração de indústrias de alta tecnologia – com a alta qualidade de energia fornecida pelas termelétricas a gás – seja com a busca de consumidores eletrointensivos para aproveitar a energia barata e abundante do Nordeste. O executivo também analisa o papel das tecnologias de armazenamento de energia.

Confira a análise do executivo na íntegra:

Qual é a avaliação que você faz hoje das oportunidades de crescimento das fontes renováveis no Brasil?

Começando pela eólica, na nossa visão de desenvolvimento, entre as renováveis, esta é a fonte mais competitiva para expansão da capacidade de geração brasileira. Existe uma previsão de crescimento de 100% dessa fonte nos próximos anos, mas é preciso resolver alguns problemas.

Quais?

As eólicas estão concentradas majoritariamente no Nordeste. Portanto, se em algum momento não houver um aumento de carga no Nordeste, você vai ter um impacto na expansão das eólicas. É preciso que haja políticas públicas para levar grandes consumidores de energia para a região, para aproveitar esse recurso abundante e garantir a expansão da fonte.

E como levar esses consumidores para a região?

É preciso haver uma visão mais ampla dos governos municipais, estaduais e federal de levar consumidores para a região. Mas é preciso que haja uma visão em nível federal de buscar no exterior grandes players e evitar que os estados façam isso criando uma guerra de incentivos entre eles.

O que você quer dizer com uma visão mais ampla da administração?

Por exemplo, o gás natural do pré-sal brasileiro traz uma oportunidade para o setor elétrico que é a melhor da qualidade da energia. Isso permite que você atraia empresas de alta tecnologia, que têm um valor agregado muito grande. A região do Rio de Janeiro, por exemplo, vai ficar com uma qualidade da energia fantástica. Um exemplo disso foi quando foram instaladas as termelétricas no Norte-Fluminense. Elas permitiram a instalação de empresas de alta tecnologia ligadas ao petróleo. Se o governo tiver uma visão de longo prazo, tem que levar indústria de tecnologia para essa região.

Que tipos de negócios poderiam ser viabilizados?

Por exemplo, centros de processamento de dados, indústria fina, de plástico, etc. É uma oportunidade de transformar o Brasil num produtor de alta tecnologia. Um bom exemplo é a Embraer, cuja atuação traz um valor agregado e uma imagem boa para o país.

Mas isso resolve o problema da expansão eólica no Nordeste?

Na medida que você garante a oferta de energia de qualidade no Sudeste, você pode mandar essa energia para todo o Brasil via sistema interligado e, com isso, repor o nível dos reservatórios, inclusive do Nordeste. Quando você faz isso, a hidrelétrica faz o atendimento da curva da carga na região, cobrindo a intermitência das renováveis e ainda provoca uma redução de preço da energia e volatilidade deste naquele submercado. Ao garantir o suprimento de energia firme das hidrelétricas você incentiva que consumidores eletrointensivos se instalem na região, garantindo a expansão eólica.

Qual é o papel de cada ente público para garantir que isso aconteça?

O município geralmente se encarrega do planejamento urbano, para permitir a instalação de um grande consumidor, vai precisar principalmente rever plano diretor e sistema de educação, para preparar a população para aquele investimento. O estado, por sua vez, é o maior fomentador da vinda de empresas, mas ele precisa entender que o concorrente não é o estado vizinho. Ele tem que entender qual é a vantagem competitiva deles e buscar empresas que tirem proveito dessa vantagem. Por exemplo, um estado do Nordeste, sabendo que a energia é barata, vai buscar grandes consumidores. Rio e São Paulo devem, por exemplo, buscar atrair empresas de tecnologia e que necessitem de qualidade de energia. Do ponto de vista federal, o papel é divulgar o país no exterior.

Se o Nordeste falhar em levar mais consumidores para lá, o que acontece?

Hoje a expansão eólica é toda puxada pelo mercado livre. Se ocorrer uma queda do preço no Nordeste e não ocorrer no Sudeste, automaticamente fica difícil vender energia do Nordeste para o centro de carga Sul-Sudeste. Se você não tiver um aumento de carga correspondente dentro do submercado Nordeste, você compromete a expansão dessa fonte.

E a energia solar, como entra nesse contexto?

A energia solar é a forma mais democrática de energia. O mesmo painel que vai numa casa, vai numa grande central. Ela tem grande penetração em residências, condomínios, etc. A expansão, nesse caso, vai ocorrer tanto na geração centralizada quanto distribuída. A vantagem é que ela não está limitada ao Nordeste. Mesmo projetos na Região Sul têm bom fator de capacidade quando comparados a equivalentes internacionais.  Fator de capacidade é a energia efetivamente gerada em relação à potência instalada.

Quais são os desafios para viabilizar o desenvolvimento equilibrado dessas fontes?

É conseguir concatenar o desenvolvimento dessas fontes sem o fator político. A ideia é que tenha a expansão de cada fonte onde ela é efetivamente necessária, incentivando um crescimento adicional onde haja uma vantagem competitiva. Isso vai fazer com que o sistema elétrico brasileiro seja mais bem atendido e tenha o custo total mais competitivo possível. Hoje nossa energia é muito mais cara do que muitos outros países. Por isso que precisamos ter essa coordenação.

O crescimento de novas tecnologias, como carros elétricos, o 5G, vai demandar mais energia de qualidade?

O 5G vai permitir a automação de quase tudo. Há 20 anos, quem diria que o smartphone seria um equipamento tão essencial para os dias de hoje? Nos próximos 20 anos, a revolução está nessa automação, nos carros, em casa, nas empresas, etc. E acho que esse consumo está sendo mal dimensionado no mundo todo. Esse aumento de consumo provavelmente será atendido pelas fontes renováveis de energia – firmado pela hidro e termoelétricas.

E como você vê as tecnologias de armazenamento de energia (baterias) cumprindo esse papel de atendimento do mercado?

Nos Estados Unidos, algumas empresas fazem uma usina solar e um banco de baterias para atender uma hora do pico. A empresa fica gerando o dia inteiro e, no horário de ponta, usa a energia da bateria. Aqui vamos ter, dependendo do local, necessidade desse tipo de suporte. Por exemplo, na Região Sul, que não tem tanta flexibilidade das hidrelétricas, pode ser uma primeira candidata.

Isso fica mais relevante com a entrada do PLD Horário?

Sim, pois com diferentes preços ao longo do dia, você viabiliza esse tipo de investimento.  Investe-se em uma solar para vender no horário mais caro do dia e ainda resolve uma eterna discussão sobre lastro desses empreendimentos.

E como garantir a oferta de gás do pré-sal?

Através da regulação que virá da Lei do Gás.  É importante criar um incentivo para se investir no escoamento desse do gás para a costa e incentive ás empresas que utilizem esse energético.  As termoelétricas podem ser âncoras, mas esse gás vai precisar de consumo industrial, residencial e de transporte.  Não é um planejamento simples. A demanda para gás natural existe, precisamos fazer com que esse mercado se apresente.  O Brasil não pode perder esse recurso seja em reinjeção ou em flare, pois todos podem ganhar muito com esse energético.