Por Redação em 16/12/2020

Uma empresa com 1,5 bilhão de consumidores, atuando em 150 países e com um portfólio de 7 bilhões de produtos vendidos – segundo dados do Company Overview de dezembro de 2019 -, líder em sua área de atuação. Esses números são da fabricante de produtos de beleza L’Oréal e dão a dimensão do tamanho da sua influência em nível global. Mas esse poder vem acompanhado da responsabilidade de dar conta dos desafios da humanidade. “Quem tem poder, tem dever”, afirma a diretora de Sustentabilidade da empresa no Brasil, Maya Colombani, em entrevista ao Além da Energia.

Em sua visão, a sustentabilidade deve ser parte do negócio das grandes corporações, que junto com governos e sociedade, têm o papel de ajudar a resolver os problemas da humanidade, incluindo as mudanças climáticas, mas também o desenvolvimento social e econômico e a regeneração da biodiversidade. “Hoje, não ter sustentabilidade nas empresas é tão inconsciente quanto não ter o digital nas estratégias empresariais”, afirma Maya.

A L’Oréal lançou neste ano o seu novo compromisso de sustentabilidade para 2030, o L’Oréal para o futuro. A estratégia se baseia em três pilares: (1) transformar a própria companhia e respeitar as fronteiras planetárias; (2) capacitar o ecossistema de negócios, ajudando-os a fazer a transição para um mundo mais sustentável; (3) contribuir para solucionar os desafios do mundo, apoiando necessidades sociais e ambientais urgentes.

Na entrevista, a executiva fala desses compromissos, bem como dos desafios para cumpri-los e das oportunidades de melhoria.

As empresas estão mais preocupadas com a sustentabilidade?

O mundo mudou profundamente de dez anos para cá. Hoje sabemos que manter esse nível de consumo não é sustentável. Existe uma emergência climática cada dia mais concreta e não pode haver nenhum negacionismo sobre ela. Além disso, a geração mais jovem tem uma forte consciência de sustentabilidade. E com a tecnologia, os produtos e serviços das empresas estão cada vez mais similares. O que faz a diferença entre elas é, portanto, a questão da sustentabilidade.

É uma questão de sobrevivência financeira?

A questão vai além do aspecto financeiro. As empresas estão mais conscientes da necessidade de serem sustentáveis e do peso de suas decisões na sociedade. Quem tem poder, tem dever. Diante desse cenário, nenhuma empresa pode negar a sustentabilidade e a necessidade de transformação de seus negócios. Além disso, vemos um movimento positivo de empresas que querem criar valor para a sociedade.

sustentabilidade no negocio

A sustentabilidade, então, virou regra de negócio?

Quando se trata de investimento, as pessoas querem apostar numa empresa que consegue se projetar no futuro. Hoje, não ter sustentabilidade nas empresas é tão inconsciente quanto não ter o digital em sua estratégia. Isso está ligado às necessidades do futuro, da sociedade, da humanidade e também dos negócios. Portanto, sim, a função de sustentabilidade hoje está totalmente interligada à estratégia de negócio.

O que é sustentabilidade hoje, é trabalhar pela descarbonização?

Vai muito além disso. Hoje temos um mundo cada vez mais frágil e incerto. Nesse contexto, mais do que nunca as empresas devem contribuir com as necessidades da humanidade. Elas precisam ser catalisadoras de mudanças, tanto para seus fornecedores, quanto para seus clientes. Elas têm que colocar a sustentabilidade em sua cadeia de valor, fazer o bem e educar o consumidor. Por último, as empresas, sobretudo as listadas, têm que contribuir com uma coisa maior que ela, que é a sociedade. Ou seja, assumir desafios que não estão diretamente ligados ao seu negócio, como por exemplo promover a diversidade e equidade de gênero.

Nesse contexto, como diferenciar o papel dos governos e das empresas?

Quando o assunto é sustentabilidade, existem três grandes players, cada um com suas responsabilidades. O setor privado, os governos e as pessoas. Hoje é preciso haver uma maior cooperação entre essas três entidades. As pessoas, por exemplo, têm de fazer sua parte sendo cidadãs, tendo gestos de sustentabilidade, empatia, respeito ao próximo e ao planeta. Cabe aos governos estabelecerem regras para educar o consumidor e para orientar o setor privado sobre os grandes desafios da sociedade, por exemplo a economia circular, respeito à biodiversidade, inclusão, etc. O papel da empresa é de ser positiva para sua sociedade.

E como uma empresa pode fazer isso?

As empresas podem contribuir para a sociedade através de seu próprio negócio. Ou seja, o jeito de fabricar o seu produto já incluir as necessidades da sociedade. Por exemplo, na construindo uma cadeia de valor que respeite os limites do planeta. Na L’Oréal, avaliamos a pegada social e ambiental dos nossos produtos e das nossas fórmulas, com um olhar ampliado para a questão da economia circular, das matérias-primas que usamos, etc. Isso é o papel das empresas, incluir os desafios da sociedade em seus negócios. Eu costumo dizer que não basta sermos conhecidos. Mas que não podemos desistir de melhorar nunca.

E como a L’Oréal vem sendo positiva para a sociedade?

Na L’Oréal Brasil, temos um grande protagonismo social, quer seja a através dos programas de capacitação às mulheres, seja nos nossos programas de saúde. E também temos um protagonismo forte na questão das mudanças climáticas, cuja ação das empresas e dos governos são urgentes. Nesse contexto, estamos trabalhando para ser carbono neutro em 2021, antecipando em cinco anos a meta do grupo. Isso mostra o quanto essa questão é importante para nós.

Empresas e consumidores têm capacidade de se influenciar mutuamente na questão da sustentabilidade?

O mundo mudou muito. O consumidor tem mais acesso à informação e tem voz. Portanto, ele tem o poder tanto de construir quanto destruir uma marca. Vejo isso como extremamente positivo. Sendo assim, mais do que nunca, as empresas têm que ter uma escuta ativa. Uma empresa fechada a seu consumidor não vai sobreviver, pois ele exige um compromisso da empresa. As corporações, por sua vez, também conseguem influenciar o consumidor, seja na área de educação, seja ao promover a economia circular. Hoje, esse diálogo é muito forte e rico.

Você pode dar um exemplo disso?

Durante a crise do Covid, a gente fez uma fórmula de álcool gel em quatro dias. E distribuímos para milhares de famílias, bem como apoiamos mais de 220 hospitais públicos. Quando uma empresa faz isso, ela está promovendo a empatia, a generosidade, a cidadania e influenciando tanto seu colaborador quanto seu consumidor. Não existe empresa com sustentabilidade perfeita, mas sim aquela que não desiste de melhorar porque sabe que é o caminho certo. O consumidor, por sua vez, não quer que você seja perfeito, mas que você seja sincero e que abrace o desafio da sustentabilidade. Quando ele percebe essa sinceridade, ele se apaixona pela empresa.

loreal sustentabilidade

A L’Oréal já adota compromissos de sustentabilidade há mais de dez anos, quais foram os resultados bem-sucedidos?

A transformação cultural da nossa cadeia de valor, somos a única empresa do mundo a ter cinco anos consecutivos a nota máxima (AAA) no Carbon Disclosure Project (CDP), temos um excelente resultado na promoção da diversidade e equidade de gênero. A nível local fomos reconhecidos por três anos consecutivos pelo Guia Exame como a melhor empresa em Mudanças Climáticas e Gestão da Biodiversidade. Temos resultados significativos e reconhecidos. Hoje temos no Brasil 100% de energia renovável no nosso parque de fabricação, nessa parceria com a ENGIE.

E onde tem oportunidade de melhorar?

Em tudo! Por exemplo, em influenciar meu fornecedor a baixar em 50% a emissão de CO2 dele, reduzir a emissão de carbono do meu consumidor, no consumo de água na fabricação dos nossos produtos. No uso de recursos naturais abundantes sem aumentar a ocupação do solo e garantir que tudo que tenha ingredientes naturais seja sustentável. No Brasil, nosso maior desafio é na economia circular. Aqui há uma complexidade nesse segmento devido às condições das cooperativas, o respeito às leis trabalhistas, e o fato de ser uma economia extremamente informal. Temos ainda desafios tecnológicos e certamente podemos melhorar nosso protagonismo social, sobretudo junto aos indígenas. Temos ainda o dever de ir além na regeneração da biodiversidade e conservação das nossas florestas.

O que é a transição energética na L’Oréal?

Temos uma mobilização incrível da nossa cadeia de valor nessa direção. Ela está no coração da nossa estratégia no combate às mudanças climáticas. Por exemplo, ao anteciparmos a meta de termos 100% de energia renovável em nosso parque fabril, na construção disso junto com nossos parceiros, como a ENGIE. Ou seja, transição energética ou descarbonização estão ligados à colaboração e cooperação. E está ligado a tudo isso que a gente faz para ser sustentável. Transição energética também é inovação. Hoje, por exemplo, temos uma democratização da energia renovável, portanto uma oportunidade muito grande para descarbonização no Brasil.