Quando se pensa na construção de uma usina hidrelétrica, a primeira coisa que costuma vir à mente é a área que será ocupada por seu lago. Porém, usinas hidrelétricas também trazem numerosos benefícios para a região em que se localizam. Entre eles estão, por exemplo, mais oportunidades de emprego e renda, regularização dos rios e melhora na navegabilidade de rios, mas eles não param por aí.

A água é a fonte energética mais versátil e flexível. Não à toa representa mais de 60% capacidade instalada brasileira. Os reservatórios funcionam como uma bateria de armazenamento 100% renovável e com zero emissões. Assim, com o crescimento das fontes intermitentes – a saber, eólicas e solares – eles ganharam ainda mais importância.

A relação das hidrelétricas e emissões merece um comentário à parte. Até um tempo havia muita discussão se os reservatórios de hidrelétricas emitiam gases de efeito estufa em quantidade significativa. Mas a ciência prevaleceu. A partir de um trabalho desenvolvido sob a liderança da International Hydropower Association IHA, acordou-se uma metodologia capaz de medir as emissões líquidas de reservatórios- ou seja, descontando-se as emissões que aquele trecho de rio e a região do reservatório já emitiriam naturalmente.

Segundo a National Hydropower Association, organização americana, nos EUA, as usinas hidrelétricas evitam a emissão de nada menos que 225 milhões de toneladas métricas de carbono por ano.

A hidrelétrica de Jirau, por exemplo, é registrada nas Nações Unidas no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. A usina gera anualmente cerca de 6 milhões de Reduções Certificadas de Emissões por ano. Essa quantidade de emissões evitadas era suficiente para compensar as emissões de Gases do Efeito Estufa da totalidade dos voos internacionais do transporte aéreo brasileiro em 2016.

Empregos, controle de cheias e melhora no IDH

Os benefícios, contudo, vão além da energia e das emissões. A construção de uma usina hidrelétrica mobiliza uma quantidade considerável de mão de obra, o que gera a abertura de uma série de postos de trabalho formal, aponta uma pesquisa de 2016 do Input Brasil. Esse movimento tem, ainda, o potencial de criar vagas indiretas, uma vez que é necessária infraestrutura para atender a esse efetivo. E, ainda que boa parte das vagas possam fechar após o período de construção, os trabalhadores que são treinados para a construção da usina passam a ter um ofício e uma parte pode passar a trabalhar na operação da nova usina e em sua cadeia de suprimentos.

Na sequência da construção, ao se encherem, os reservatórios das usinas hidrelétricas geram um efeito nos rios que os alimentam: Permitem que as cheias dos rios sejam regularizadas, o que além de evitar riscos à população ribeirinha e à infraestrutura nas  épocas de maior chuva,  promove que os barcos naveguem melhor por esses rios, ou seja, eles viram hidrovias em vários trechos.

Nesse contexto, o case da Hidrelétrica Três Gargantas, na China, é emblemático. Maior usina do mundo em capacidade instalada, suas prioridades são o controle de cheias e navegação, e somente em terceiro lugar a geração de energia. Antes da construção da planta, o rio Yang-tsé era considerado bastante nervoso, o que em várias ocasiões provocou a perda de milhares de vidas.

Mas além de evitar enchentes, os reservatórios constituem uma reserva que pode ser usada para diferentes fins durante a seca. Entre esses possíveis usos estão, por exemplo, o fornecimento de água para a população e a irrigação de plantações.

Inclusão econômica e geração de recursos para os municípios são outros dos benefícios dessa fonte. Em 2019, por exemplo, cerca de 200 hidrelétricas e Itaipu pagaram R$ 3 bilhões a título de compensação financeira para estados e municípios. Somente a usina binacional recolheu R$ 1 bilhão. Sem dúvida, esse montante é a maior renda de vários municípios e tem um reflexo positivo sem precedentes em seu desenvolvimento.

Benefícios das hidrelétricas incluem educação ambiental

Há outros benefícios que talvez não sejam tão óbvios. As hidrelétricas levam educação ambiental onde são instaladas. Populações que antes viviam em condições precárias, com lançamento de esgoto nos rios não só param de fazê-lo porque passam a ter infraestrutura para isso, como adquirem a consciência de que a prática é prejudicial ao meio ambiente.

Adicionalmente, as hidrelétricas podem, ainda, melhorar a qualidade da água, porque esta é monitorada não só no reservatório, mas também nos rios. Quando se detecta algum problema, as autoridades competentes são informadas.

O licenciamento é um capítulo à parte. As demandas criadas pelas licenças ambientais trazem investimentos importantes para o meio ambiente. Há um grau de sofisticação muito importante nessas demandas. Além disso, na renovação dessas licenças de operação, muitas vezes o programa ambiental passa a ser maior do que o original. Soma-se a isso investimentos sociais voluntários das empresas concessionárias.

Entre esses investimentos, estão os centros de cultura e sustentabilidade instalados em algumas das cidades em torno dos reservatórios das usinas da ENGIE. Eles oferecem, por exemplo, aulas de música, canto, teatro e dança, sempre buscando promover a cultura da região.

Isso tudo se reflete na melhora em índices de desenvolvimento. O Instituto Ilumina criou o Índice de Desenvolvimento Local Sustentável (IDLS). O indicador leva em conta educação, dinamismo econômico e as qualidades de vida e da gestão municipal. A análise dos dados apontou que a maior parte dos municípios com hidrelétricas tinham níveis mais altos de IDLS.

Mas os aspectos positivos não param por aí. É possível, por exemplo, que elas promovam até o turismo, como apontado no Plano Nacional de Energia 2030. Cidades ao redor dos reservatórios das hidrelétricas ganharam praias artificiais, o que incentivou o turismo local.

Vale destacar que tanto projetos de qualquer porte podem ser sustentáveis, mesmo os localizados em regiões sensíveis. Dois exemplos comprovam isso: as hidrelétricas do Rio Madeira na Amazônia – Santo Antonio, e Jirau, que foram auditadas usando o Protocolo de Sustentabilidade de Hidrelétricas, desenvolvido por um grupo de stakeholders de toda a cadeia de valor da hidreletricidade, como Bancos dos Princípios do Equador, ONGs, Governos de vários países, investidores, fornecedores, Banco Mundial, etc, sob a organização da International Hydropower Association IHA.  Esse Protocolo indica as melhores práticas de sustentabilidade para hidrelétricas em todas as suas fases – da idealização da usina até a sua operação. Os resultados das auditorias são publicados na internet.

Um país com abundância de recursos hídricos como o Brasil não pode abrir mão dessa fonte. Sobretudo no contexto da transição energética, em que o próprio mercado exige o desenvolvimento sustentável.