Por Redação em 08/06/2021

As histórias do engenheiro José Magri e da Política Nacional do Meio Ambiente se confundem. Com 40 anos de atuação na área, Magri viu toda a evolução do tratamento da questão ambiental no Brasil, desde o Estado empreendedor e licenciador até o novo capitalismo, no qual as empresas se reconhecem como parte das comunidades onde estão inseridas e suas responsabilidades nesse contexto. 

“As empresas não estão mais em uma comunidade. Elas fazem parte da comunidade e se sentem corresponsáveis pela mercearia do bairro, participam dos grupos sociais. Elas não são mais uma ilha de prosperidade em meio a uma determinada comunidade. E isso no setor de energia é ainda mais relevante, pois são projetos de longo prazo”, afirma.

Nesta entrevista, Magri resgata um pouco do histórico ambiental do Brasil e mostra como ele o enxergou a partir da sua trajetória profissional na ENGIE. Ele dá, ainda, uma visão de futuro sobre esse novo momento que a sociedade está vivendo.

Ao longo da sua trajetória, como você viu a evolução do assunto meio ambiente no setor de energia?

No surgimento da Política Nacional de Meio Ambiente (Lei 6.938/1981) e da Resolução Conama 01/1986, que instituiu o EIA/Rima, tínhamos uma influência muito grande do Estado, que era ao mesmo tempo empreendedor e licenciador. Hoje, 40 anos depois, não se busca mais a viabilização ambiental, pois ela já está inserida no projeto. Quando a variável ambiental não entra desde a fase do projeto, este não sai do papel.

Quando isso ganhou força?

O ponto de inflexão foi a Eco 92, quando, com a Carta da Terra, o conceito de sustentabilidade ganhou força. Foi aí que surgiu o slogan “pensar globalmente, agir localmente”. A partir de então, os programas de governo tiveram que se adaptar a esse conceito. Logo depois, ganharam força as questões de água, mudanças climáticas e biodiversidade.

Na prática, o que mudou?

Antes, se você tinha uma indústria com uma produção de um efluente, você construía uma estação de tratamento. Hoje, para qualquer coisa que você produza, você olha todo o processo de produção para não gerar resíduos. E se gerar, tem de achar uma alternativa para ele. Você está fomentando a economia circular.

E para o futuro, o que muda?

A análise do ciclo de vida do produto vai ganhar muita força. Cada produto será avaliado conforme a sua emissão de carbono, o consumo de água, ocupação de solo, etc. Isso vale para projetos de energia e de infraestrutura também. Nesse contexto, ganha força a economia circular. Ou seja, os resíduos do meu processo são matéria-prima para outro processo. Com isso, se diminui os problemas do ciclo de vida do produto.

Qual foi o papel do setor financeiro nessa evolução?

Depois da Rio +20, a sociedade viu no setor financeiro um co-responsável para as questões socioambientais. Nesse contexto, eu cito os Princípios do Equador. O mercado não quer mais projetos que não sejam sustentáveis. Nos últimos três anos, isso ganhou muita força, o que deu origem ao ESG. Assim, o setor financeiro é o grande impulsionador, viabilizando projetos que transformem a sociedade e as comunidades onde estão localizados. O acionista não quer mais aplicar recursos em projetos insustentáveis.

As empresas mudaram também?

Mudou uma coisa muito importante: as empresas não estão mais em uma comunidade. Elas fazem parte da comunidade. Elas se sentem corresponsáveis pela mercearia do bairro, participam dos grupos sociais. Elas não são mais uma ilha de prosperidade em meio a uma determinada comunidade. As questões de Responsabilidade Social Corporativa são parte da estratégia das Empresas e não um item em adição à ela. Além disso, a governança também oferece mais transparência às suas ações. 

Isso é forte no setor de energia?

Hoje, não se faz mais um empreendimento de energia se isso não for pensado do início ao fim do projeto. São projetos de longa duração e, desde já, é preciso pensar no que vai acontecer daqui a 20 anos naquele território. E depois dos 20 anos, tenho que saber o que vai acontecer com o empreendimento. Por exemplo, o que você vai fazer com uma eólica depois do seu ciclo de vida? E uma termelétrica a gás? Eu costumo dizer que empreendimentos como esses são um casamento indissolúvel, tendo em mente que a empresa é a peça mais importante daquele ambiente. As empresas têm de olhar e participar das questões de educação, emprego, saneamento, meio ambiente e outras das comunidades, pois elas se tornam parte daquele cotidiano e, claro, da própria paisagem..

Qual é sua visão de futuro a esse respeito?  

De 2015 a 2030, temos uma agenda de desenvolvimento sustentável, fruto de uma discussão de todos os países da ONU. São mais de 100 países que definiram que ninguém deve ficar para trás. É preciso evitar que crianças morram por problemas de saneamento. Temos 1,5 bilhão de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Tudo isso está contemplado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. Por meio deles, os países e as empresas estão pensando nas pessoas, no meio ambiente e no planeta de forma integrada. E isso já se faz olhando para 2050 e para as questões climáticas para até o final do século 21. 

O que significa não deixar ninguém para trás no contexto da transição energética?

Significa criar ferramentas que possibilitem que a energia seja gerada e ofertada de forma justa às populações. Se essas populações estiverem ono grid, que essa energia seja distribuída para alavancar o desenvolvimento e permitir as condições de vida adequadas para que todos possam prosperar. No caso das populações off grid, é importante continuar inovando para que fontes alternativas, como é o caso da solar, também possam alcança-las. Quando a energia não está plenamente disponível, o que se vê é uma redução da qualidade de vida e até da expectativa de vida de comunidades inteiras, inclusive pelo contexto de conservação de alimentos, medicamentos, vacinas e de segurança sanitária como um todo. Por exemplo, em países dos continentes africano e asiático, há famílias que cozinham seus alimentos usando dejetos de animais. A ONU incentiva o uso de gás natural como combustível. Isso cabe também na questão da energia elétrica, da água, etc. 

Muitas dessas ações eram exclusivas do Estado e hoje as empresas estão assumindo esse papel. Como se chega ao equilíbrio do que é papel do Estado e do que é das empresas?

Esse é o grande desafio. Minha visão é que a partir desse novo capitalismo, o Estado vai ser cobrado. O exemplo disso é o que estamos vivendo agora na pandemia. O Estado precisa fazer o seu papel, que é seu por definição, para assegurar o acesso da população à saúde, à educação, à segurança e aos mecanismos fundamentais para a qualidade de vida. No entanto, as empresas hoje têm um enorme potencial de cooperar nestes temas – e é isso que estão fazendo. Não por acaso hoje em dia as corporações despertam maior confiança em relação às informações que divulgam quando comparadas a governos, por exemplo. Eu estou abrindo mão do meu lucro para colaborar e ao mesmo tempo cobrando o Estado. Outro exemplo é a questão da Amazônia, no qual as próprias empresas foram ao governo denunciar as queimadas e o desmatamento. As empresas têm o interesse que a marca Brasil seja bem vista no exterior. Isso vale muito para a aceitação de produtos brasileiros. 

Como você vê o papel da ENGIE e do setor de energia de uma forma geral ao longo dos anos no contexto dos objetivos de desenvolvimento sustentável?

O setor de energia tem um papel fundamental, pois é capital intensivo, de longo prazo. A ENGIE pensa em projetos sociais e ambientais perenes. E isso passa por produzir energia renovável, que envolve a redução nas emissões de carbono, a preservação da biodiversidade e o cuidado com as pessoas. Por exemplo, quando construímos a Hidrelétrica de Itá, havia espécies de peixe ameaçadas. Nós conseguimos reverter isso. Na Hidrelétrica Cana Brava, pedimos ajuda das pessoas da comunidade de entorno que já conheciam a região para fazer a preservação da biodiversidade e dos frutos do cerrado, que têm valor econômico e regional. Outro exemplo é o projeto de produção de erva-mate dentro de um sistema agroflorestal que apoiamos a Associação dos Produtores de Erva Mate – APROMATE do município de Machadinho em conjunto com o Consórcio da Usina Hidrelétrica Machadinho, com a Emater e Embrapa. Essa atividade é reconhecida pela CEPAL / ONU como uma atividade de desenvolvimento sustentável local – Big Push para Sustentabilidade. Ou seja, tudo isso a partir de um projeto do setor de energia elétrica. Há outros inúmeros exemplos, tanto nas usinas em operação, quanto nos projetos em desenvolvimento.

Como foi na ENGIE lidar com a questão do carvão dentro dessa evolução da sustentabilidade voltada para as pessoas e o planeta?

A participação do carvão nas emissões brasileiras é muito pequena. A ENGIE faz inventários voluntários de suas emissões há dez anos e os publica anualmente. Nossas emissões de CO2 são da ordem de 5 milhões de t/ano. Por outro lado, nossas usinas de energia renovável evitam a emissão de mais de 6 milhões de t/ano de CO2.  Ainda assim, com base em sua estratégia global de acelerar a transição energética para fontes limpas e renováveis para uma visão de futuro mais sustentável, o grupo decidiu sair do carvão. Por isso nós desativamos a usina de Charqueadas a carvão, devolvemos a de Alegrete a óleo e desativamos, por questões de eficiência, a William Arjona, a gás. Com isso, a empresa deixou de emitir cerca de 1,5 milhão de t/ano de CO2

A desativação total do carvão da ENGIE no Brasil teria um impacto social?

De 2050 a 2100, se não for encontrada uma maneira economicamente viável de capturar o CO2, todas as fontes fósseis deverão  ser desativadas no mundo. Mas para isso, é preciso fazer uma transição energética. Por exemplo, como lidar com a questão social local? Isso é a transição justa. Se você desligar hoje todas as usinas a carvão e os demais fósseis do mundo, será um caos. Muitas pessoas dependem dessas usinas e há também a questão da segurança do sistema elétrico. No Brasil, em períodos de baixa hidraulicidade, todo o sistema interligado nacional depende das térmicas para suprir suas necessidades e evitar riscos de racionamento. Com uma matriz majoritariamente hídrica, passamos períodos difíceis em 2001, quando todo o Brasil teve que viver um racionamento. Por isso é preciso fazer essa transição de maneira gradual e planejada. O Brasil e a ENGIE estão fazendo esse caminho.

Você é otimista quanto a esse novo capitalismo?

Eu sou um eterno otimista, acredito que vamos viver melhor, ter uma sociedade mais inclusiva e diversa. A própria pandemia está nos ensinando muito. Eu acredito na capacidade do ser humano de se reinventar e, não deixar ninguém para trás é o futuro para vivermos melhor. Estamos nesse caminho todos juntos, como sociedade.