Por Redação em 25/03/2021

“As mulheres são mais detalhistas e aceitam ouvir outras opiniões. Com esse diferencial, é possível administrar melhor dificuldades e situações críticas que ocorrem no dia a dia”, comenta Selia Felizari, presidente da Associação dos Produtores de Erva-Mate (Apromate), na cidade de Machadinho (RS), e gestora do Projeto Cambona 4. 

A iniciativa, reconhecida pela Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) das Nações Unidas como uma ação transformadora para a sustentabilidade econômica da região, serve de modelo para outras comunidades. “Por meio de pesquisa, tecnologia e turismo, o projeto alavancou a indústria, melhorou os preços da erva-mate e proporcionou melhorias para as propriedades e o meio ambiente”, diz Selia.

Conheça o inovador Projeto Cambona 4

Criado em 2000, o Projeto Cambona 4 tem um viés tecnológico relevante e grande importância socioeconômica para toda a região. Resultado da parceria entre a Apromate, a Embrapa Florestas (PR), a Prefeitura Municipal de Machadinho (Secretaria da Agricultura), a Emater-RS e a  antiga Metalúrgica Abramo Eberle S/A (Maesa), o sistema agroflorestal associa o plantio da erva-mate com espécies florestais arbóreas e arbustivas, o que resulta em um programa de geração de renda e emprego para a população local, com conservação ambiental.

“Ele promove a recuperação da vegetação nativa das florestas da região da Usina Hidrelétrica de Machadinho. O Sistema Agroflorestal contribui para a reconstrução do habitat natural da erva-mate e, ao mesmo tempo, gera emprego e renda no meio rural”, destaca Selia. 

Com a continuidade do projeto, outros parceiros aderiram à proposta, como a ENGIE. A motivação é o fato de que o projeto preserva a biodiversidade, garante o sequestro de carbono e a proteção de cerca de 70 nascentes de água. A área plantada tem, hoje, 190 hectares, envolvendo 85 famílias e 255 pessoas da Associação dos Municípios do Nordeste Rio-Grandense (Amunor).

À frente da ideia, a engenheira agrônoma e presidente da Apromate ressalta que o sistema serve de modelo para muitas comunidades, pois as ações de pesquisa e tecnologia alavancaram a indústria, melhoraram os preços da erva-mate e trouxeram melhorias econômicas, ambientais e sociais.

“Nosso sistema fortalece a cadeia produtiva da erva-mate, desde a produção de sementes da cultivar cambona-4 até a exportação do produto para outros países”, ressalta Selia. A título de curiosidade, o nome do projeto vem da palavra cambona, um tipo de chaleira que os gaúchos e, em especial, os tropeiros, usavam para ferver a água para o preparo do chimarrão.

Iniciativa mostrou a força feminina, mesmo em áreas nas quais as mulheres são minoria

Selia conta que, no início de sua carreira, o grande desafio foi superar a falta de confiança por parte dos produtores rurais, tendo em vista que não havia na região mulheres atuando na área agrícola. “Na época, eu trabalhava na PLANTEC – Planejamento e Assessoria Rural, e a presença feminina nesse segmento era bastante restrita”, explica. “Hoje já há mais mulheres no setor. As pessoas mudaram de opinião e a diversidade é maior”, completa.

Para a engenheira, a dedicação feminina faz toda a diferença. “O respeito que alcancei foi resultado do aperfeiçoamento e do trabalho conjunto com parcerias para o desenvolvimento dos projetos”, esclarece. Segundo ela, a flexibilidade é um dos grandes diferenciais femininos no setor. “O importante é manter a calma e analisar os pontos críticos com cuidado, para não tomar decisões que possam prejudicar o trabalho ou o relacionamento com as pessoas do grupo. Acredito que, quando temos como objetivo promover o desenvolvimento e a união dos participantes, conquistamos o respaldo e a confiança de todos”, pontua.