Por Redação em 15/10/2020

Presidente executiva da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Elbia Gannoum, foi eleita, em maio, vice-presidente do Conselho Global de Energia Eólica (GWEC). Ainda em março, a executiva foi escolhida para ser a embaixadora global pelo Brasil no WomeninWind Global Leadership Program, parceria do GWEC com a Rede Global de Mulheres para a Transição de Energia (GWET), grupo de oito embaixadoras globais que atuam como interlocutoras no tema transição energética com os setores público e privado e a mídia, abordando a diversidade de gênero no contexto de cada mercado.

No ano passado, Elbia recebeu o Prêmio “C3E – Clean Energy Education & Empowerment – Woman of Distinction Award”, conferido pelo Clean Energy Ministerial e da Agência Internacional de Energia. A premiação é um reconhecimento a mulheres que se destacam na indústria de energias limpas no mundo.

Em entrevista exclusiva ao Além da Energia, Elbia afirma: o mercado está liderando o debate e demandando a maior diversidade dentro das empresas, ampliando o debate, para além das questões de gênero.

“Quando a gente fala em diversidade e inclusão, temos uma dimensão maior do debate. Já não estamos falando só da participação das mulheres no mercado, estamos falando de outros pontos importantes e que foram historicamente esquecidos. Não é mais só gênero, é raça, identidade sexual, faixa etária, e, inclusive condições sociais “, ensina.

Estudo divulgado pela Agência Internacional de Energia Renovável (Irena) mostra que as mulheres ocupam cerca de 32% dos empregos na área. Quais os números no Brasil?

Não temos esse recorte, esse número no Brasil, infelizmente. O tema gênero tem ficado mais forte no país, nos últimos anos, principalmente no setor de energia. Mas temos essa carência de dados e uma maior estruturação das questões. E agora estamos falando de diversidade, ampliando o debate, envolvendo não só o conceito de gênero. É importante pensar nisso, levantar esses números no Brasil, é algo que o setor está devendo e precisa para avançar nos debates.

Mas você arriscaria um número?

Na média, eu arriscaria que está bem abaixo. Mas o número vem aumentando, e quando se olha para setores como o eólico, que é uma fonte mais nova e moderna, você vê realmente uma quantidade bem maior de mulheres.

Esse número também depende da posição, do cargo ocupado nas empresas. Conseguimos, muitas vezes, ganhar visibilidade nos cargos executivos e de liderança. Mas temos um número expressivo, hoje, no chamado chão de fábrica. Muitas empresas multinacionais, por sinal, vêm pedindo e incentivando um aumento do número de mulheres no chão de fábrica.

Ainda existem barreiras para a entrada das mulheres no setor?

Essa pergunta é muito importante, porque acaba sendo extensiva a todos os setores da economia, não apenas da energia. Eu entendo que não existem muitas barreiras. Talvez essa não seja a palavra, o termo mais adequado. Quando eu entrei no setor de energia, há muitos anos, eu nunca senti que o setor não era propício para as mulheres. Nunca senti que o setor como hostil para as mulheres. As mulheres que, de certa forma, não se interessavam pelo setor.

O setor mudou muito com a reforma do final dos anos 90, ele abriu para outras profissões, abriu mais espaço para administradores de empresas, economistas, advogados. Então, quando ele ampliou esse leque, deu espaço para outras formações e, consequentemente, para mais mulheres que atuavam em outros segmentos, para além da engenharia, por exemplo.

O que a gente consegue perceber ainda é que, quando a mulher resolve ter filhos, isso ainda gera uma dificuldade. Mas é algo que tem mudado. A maternidade ainda pesa muito. Mas várias empresas estão mais abertas a esse momento da mulher e eliminando essa barreira.

Há, no entanto, barreiras sociais importantes a serem trabalhadas, como é o caso da necessidade de as meninas também serem mais incentivadas a conhecerem profissões ligadas, por exemplo, à engenharia, o que ainda não acontece tanto. É neste sentido que é muito importante apoiar iniciativas que trabalhem para que mais meninas se aproximem e conheçam às profissões ligadas à sigla STEM (Science, Technology, Engineering, and Mathematics).

Quais os caminhos para ampliar a participação da mulher no setor? O que as empresas podem fazer para melhorar esses números?

É preciso pavimentar o caminho para a inserção. É preciso reconstruir o olhar para essa temática. As empresas precisam olhar para si e tornar o ambiente mais disruptivo no sentido de gerar oportunidades de inclusão. E em toda a cadeia, não só nos níveis executivo e gerencial.

A ampliação do debate, das questões de gênero para a diversidade é um aprimoramento das discussões?

Certamente. Quando a gente fala em diversidade e inclusão, temos uma dimensão maior do debate. Já não estamos falando só da participação das mulheres no mercado, estamos falando de outros pontos importantes e que foram historicamente esquecidos. Não é mais só gênero, é raça, identidade sexual, faixa etária, e, inclusive condições sociais. Porque a pobreza também dificulta o acesso ao mercado de trabalho. O Brasil já está enxergando isso, principalmente o setor privado. Existe uma iniciativa forte nas empresas, independente dos sinais do poder público. Isso é algo muito positivo. O mercado está liderando o debate e demandando a maior diversidade. Isso é maravilhoso.

A lógica da diversidade é que o diverso traz uma produtividade ainda maior. A iniciativa privada hoje não está investindo em diversidade apenas por moda ou por questões de ESG. Já está provado que a diversidade traz retorno, gera resultados. A diversidade é capaz de contribuir e formatar projetos com alto valor. Parece clichê, mas não é: a riqueza está na diversidade.