Por Joao em 09/09/2020

A pauta ESG –  acrônimo para Ambiental, Social e Governança – está naturalmente conectada ao movimento de descarbonização da economia, uma vez que um dos principais desafios da área ambiental – as mudanças climáticas – estão diretamente ligadas a ela.

A avaliação é da sócia-fundadora da consultoria Catavento e presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, Clarissa Lins. Em entrevista ao Além da Energia, Clarissa, que é reconhecida como uma das grandes líderes da pauta de transição energética no Brasil, detalha a realidade brasileira em termos de descarbonização, os benefícios desta, o papel das indústrias carbono intensivas e como vê o futuro da energia no Brasil.

Qual é realidade das empresas brasileiras hoje na pauta ESG?

Eu vejo um interesse crescente das empresas em seguir as práticas ESG. Mas a incorporação das práticas dependem do grau de maturidade de cada uma. Por exemplo, empresas que estão em setores mais sensíveis, que são cobradas pelos seus acionistas ou que tendem a ficar mais expostas a mercados internacionais se movem mais rápido nessa direção.

Essas empresas que se movem mais rápido já estão incorporando as práticas em seus negócios?

As empresas estão cada vez mais atentas a esse tema. Por exemplo, ao chamarem investidores para suas reuniões de conselho para entender suas demandas nessa área. Ou ao buscarem padrões globais para incorporar a questão dos riscos climáticos em suas estratégias. Na prática, essas empresas estão cada vez mais interessadas em estar em conformidade com normas mais avançadas de ESG. 

descarbonizacao

Quais são os benefícios que as empresas percebem ao estarem adequadas a essas tendências ESG e de descarbonização?

Primeiramente, elas conseguem ser analisadas por um conjunto maior de investidores. O segundo ponto é poder acessar instrumentos financeiros específicos para isso, como os green bonds. Outro aspecto muito relevante é a atração e retenção de talentos. Afinal, a geração atual está atenta a esses aspectos. Outro benefício é o desenvolvimento de novos produtos e de novas formas de chegar ao consumidor. Isso tudo se reflete em marca, reputação, originalidade e outros aspectos positivos para as empresas.

A adequação a essa pauta torna as empresas mais resilientes?

As empresas que estão aptas a capturar esse movimento geralmente têm sistemas de gestão de risco mais robustos, sistemas de engajamento mais ricos e as preparam melhor para responder às crises sistêmicas, por isso certamente são mais resilientes.

Como a pauta ESG se conecta com o movimento de descarbonização das empresas?

A conexão do ESG com a descarbonização é muito natural, pois um dos principais desafios do futuro da humanidade é relativo às mudanças climáticas. E nesse sentido, é preciso ter muito claro como empresas, governo e sociedade respondem a esse desafio. Às empresas, cabe identificar as oportunidades que advém dessa nova realidade. E o desafio se aplica a todos os setores, principalmente àqueles que são mais carbono intensivos, por exemplo as indústrias de energia e mineração. O ritmo em que isso se dará depende da capacidade de resposta das empresas e dos níveis de cobrança dos investidores, governos e sociedade.

Quais são as oportunidades que advém da descarbonização no contexto ESG?

As oportunidades são diversas, seja em eficiência energética, na revisão de processos produtivos ou na substituição de fontes energéticas. E esse exercício provoca uma troca de experiência rica entre os times e uma busca constante por inovação. Além disso, elas podem ir além de suas fronteiras e olhar para o uso que é feito de seus produtos. E nesse sentido, o desafio é um pouco maior, porque é necessário que a empresa use a sua capacidade de influenciar o consumidor. 

Você tem um exemplo dessa capacidade das empresas de ir além dos seus domínios?

Por exemplo, a capacidade de uma empresa de óleo e gás influenciar como usamos tudo o que é relativo ao transporte. Para conseguir isso, ela precisa trabalhar em colaboração com outras empresas, com a sociedade e com o setor público. 

A mudança de comportamento do consumidor é o maior desafio para a descarbonização da economia brasileira?

O Brasil tem um desafio maior porque a maior fonte de emissões é o desmatamento e o uso da terra. Em razão disso, a pauta prioritária da descarbonização deve ser o fim do desmatamento ilegal na Amazônia, a utilização correta do solo e uma expansão responsável de todas as nossas fontes energéticas, inclusive as fósseis, sem deixar de buscar tecnologias que reduzam as emissões.

As empresas conseguem influenciar no combate ao desmatamento e uso do solo?

Nesse novo contexto da sociedade, o setor privado tem a responsabilidade de mostrar ao governo a relevância de fazer valer a lei e a de garantir que o ambiente de negócios existente seja compatível com as práticas globais. 

Os setores de óleo e gás e mineração são carbono intensivos, como falar de descarbonização nessas indústrias?

Primeiro, temos que ser muito transparentes com relação ao perfil das emissões e assumir o compromisso de ter uma atuação responsável. São indústrias que estão sendo muito cobradas e já se impuseram metas de reduções de emissões. Nesse sentido, tecnologia, eficiência energética e mudança de processos têm papéis relevantes na descarbonização, bem como parcerias com empresas de tecnologia de ponta. Existem ainda as soluções baseadas na natureza. Ou seja, de que forma é possível compensar parte das emissões por meio de reflorestamento e outras ações. 

Como você vê a formação de um mercado de crédito de carbono nesse contexto da descarbonização da economia?

Precificar o carbono é uma das formas mais eficientes de induzir que as decisões empresariais levem em conta a variável carbono. Alguns países já têm experiências bem-sucedidas de taxação de carbono, mas não vejo espaço para a criação de mais nenhum imposto no Brasil, então acredito que a precificação é o melhor caminho. 

E esse mercado deve ser voluntário ou regulado, na sua visão?

Todas as hipóteses têm que ser analisadas, o importante é que comecemos esse jogo. Existe, por exemplo, um estudo sobre o assunto  proveniente do Ministério da Economia. Além disso, algumas empresas privadas já avaliam a hipótese de criação de um mercado voluntário. O caminho pode ser começar pelo mercado voluntário e caminhar para o regulado, sendo importante ter regras bem definidas sobre assunto. 

E o que as empresas vão precisar fazer para se adequar a esse mercado?

Isso vai depender dos critérios que serão estabelecidos. Por exemplo, ter um inventário de emissões auditado e feito por uma terceira parte, dentro das regras do GHG Protocol. Ter uma dinâmica de monitoramento e revisão anual dos inventários de emissões. As empresas de grande porte já têm isso bem mapeado e planejado.

Qual é o papel das cidades na descarbonização da economia?

É nas cidades que se concentram as pessoas e a atividade econômica. Elas precisam estabelecer um plano diretor que leve em conta o perfil das emissões. E estimular os modais certos de transporte levando em conta esse conjunto de emissões. Estudos mostram que as cidades podem caminhar para modelos menos emissores juntando modais diversos, por exemplo, como metrôs, ciclovias, áreas de pedestres, etc. E elas também têm papel importante na iluminação pública (com fontes renováveis) e padrões de edificação.

Qual o papel das empresas na descarbonização das cidades?

Às empresas cabe oferecer as soluções de forma competitiva, seja na eficiência das construções, seja nas fontes energéticas que nos abastecem. Numa cidade como o Rio de Janeiro, por exemplo, se conseguíssemos ter nas comunidades um fornecimento e iluminação com base em fonte solar distribuída, por exemplo, seria ótimo. 

Como você vê o futuro do mercado de energia no Brasil no contexto da descarbonização?

O mercado de energia brasileiro é dinâmico e rico em possibilidades. O Brasil é competitivo como poucos países em fontes renováveis. Isso nos posiciona como pertencendo ao futuro da energia, com todas as fontes energéticas convivendo harmoniosamente. Vejo também regiões se apropriando das suas vocações, fontes renováveis e fósseis competitivas e comprometidas com movimento de descarbonização.  No entanto, temos que fazer isso com os sinais de preço corretos, caminhando para o fim dos subsídios cruzados e para modelos decisórios e regulatórios que privilegiem a competitividade de cada fonte, olhando para todos os seus atributos e para essa transformação no modo em que consumimos energia.

Sobre a ENGIE

A ENGIE é a maior empresa privada de energia do País, atuando em geração, comercialização e transmissão de energia elétrica, transporte de gás e soluções energéticas e de infraestrutura. Além disso, a empresa está engajada proativamente em tornar-se líder na transição energética rumo a uma economia de baixo carbono. No mercado global, a empresa também é uma das líderes deste segmento, sendo referência em energia renovável e serviços de baixo carbono.

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