Por Redação em 20/11/2020

A entrada em vigor do Preço de Liquidações de Diferenças em base horária (PLD Horário) em janeiro de 2021 exige do consumidor livre – aquele que pode escolher seu fornecedor de energia elétrica por meio de livre negociação – uma melhor gestão da energia. Na mesma medida que a nova forma de precificação da energia reflete de forma mais próxima a realidade operacional do sistema, o consumidor empresarial também deve estar mais atento a seu perfil de consumo de energia e a seus contratos de compra de energia.

“O PLD Horário representa um amadurecimento do setor elétrico brasileiro, mas o consumidor livre deve estar ciente dos riscos da nova metodologia de definição do preço da energia em seu negócio e como ele deve se preparar para isso”, alerta o diretor Regulatório da ENGIE, Marcos Keller.

O PLD reflete os preços da energia no mercado de curto prazo. Todos os consumidores livres, geradoras e comercializadoras fazem parte desse mercado, organizado pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE). É nesse ambiente que consumidores e produtores de energia se organizam para honrar os compromissos financeiros de compra e venda de energia no mercado livre.

Como o PLD Horário vai afetar a vida do consumidor livre

Até 31 de dezembro de 2020, o PLD é definido para toda a semana seguinte, dividido por submercados e patamares de carga (pesada, média e leve), classificados de acordo com a intensidade do uso de energia elétrica em diferentes períodos do dia. Desde abril de 2018, paralelamente ao preço semanal, o PLD é também calculado e divulgado para cada hora do dia seguinte, o chamado PLD Sombra, mas sem de fato valer para as operações. Em janeiro de 2021, O PLD Horário entra oficialmente em vigor.

O preço da energia no mercado de curto prazo em base horária vai afetar mais severamente alguns perfis de consumidores livres. O comércio varejista, por exemplo, cujo horário de funcionamento é o comercial. O preço da energia nesse intervalo de tempo tende a ser maior do que à noite, porque ele reflete uma maior demanda por energia. Para não pagar mais caro, o consumidor teria que alterar seu horário de funcionamento, o que num estabelecimento comercial não é viável.

É nesse contexto que a vida do consumidor livre fica mais complexa após a adoção do PLD Horário. Pois ele precisa de seguros e serviços que o protejam da variação do preço da energia ao longo do dia. Se não o fizer, corre o risco de ficar mais exposto à volatilidade no preço da energia, prejudicando seu planejamento financeiro. Ou seja, o PLD Horário amplia a incerteza e, se esta não for bem equacionada, pode gerar prejuízos não previstos.

Que soluções o consumidor livre vai precisar?

É nesse cenário que os consumidores precisam estar atentos às soluções disponíveis no mercado. No lado da compra da energia, é necessário contratos mais adequados que funcionem como seguros contra a variação de preço. E no aspecto da gestão, ferramentas que atuem diretamente no consumo da energia, como soluções de resposta à demanda e geração de energia no ponto de consumo – a geração distribuída.

Pólos de eletricidade

“O PLD Horário deixará o mercado livre de energia muito mais parecido com o financeiro e isso fará surgir novas oportunidades de negócios. Na Bolsa de Valores, por exemplo, o investidor pode comprar derivativos para rentabilizar uma carteira ou se proteger de uma queda. O mesmo se dará no mercado de energia de curto prazo. Com o aumento do detalhamento do preço da energia ao longo do dia, novos produtos “financeiros” vão surgir para proteger o consumidor.”, afirma o diretor de Comercialização da ENGIE, Gabriel Mann.

Por que existe o PLD?

O PLD é o método escolhido para definir o preço da energia que será negociada no mercado livre da forma mais próxima da realidade. Como no Brasil não há o mecanismo de preço por oferta – onde geradores e consumidores cruzam suas curvas de oferta e demanda para chegar a um preço – , o cálculo é feito por complexos algoritmos que basicamente refletem o custo de oportunidade de gastar ou economizar água dos reservatórios das hidrelétricas.

Se o operador decide economizar água, mais usinas termelétricas serão despachadas. Logo, o custo presente da energia cresce, em troca de fazer uma poupança de água, aumentando a segurança do sistema. Se o operador decide gerar com as hidrelétricas, o custo da energia é reduzido, mas ao mesmo tempo a quantidade de água disponível para gerar diminui. Assim, a segurança do abastecimento futuro cai, devido à predominância hidrelétrica da matriz brasileira.

Por que mudar para o PLD Horário?

O PLD semanal é adotado no país desde a criação do então Mercado Atacadista de Energia (MAE) em setembro de 2000. Ao longo desses anos, ele atendeu de forma razoável o objetivo de definir o preço da energia. No entanto, nesse período, a matriz energética brasileira mudou. Mais fontes de energia não despacháveis – aquelas que não são acionadas e desligadas a qualquer hora, como eólicas e solares – entraram no sistema, bem como hidrelétricas sem grandes reservatórios de água – a fio d’água, no jargão do setor.

Com isso, o modelo matemático que define o preço para a energia passou a ficar mais distante da realidade. Isso gera custos para o sistema e incertezas para o operador. Quanto maiores as incertezas, maiores os custos e o espaço para a tomada de uma decisão errada.

Tudo isso mostra que o PLD horário é um tema urgente e estratégico para o setor. E que é importante que seja debatido por empresas de energia e consumidores. Além disso, o tema está em constante evolução e, por essa razão, estima-se que novos desafios e oportunidades para resolvê-los surjam com sua efetiva implementação.