Por Redação em 18/09/2020

As hidrelétricas têm um papel fundamental na transição energética para uma economia de baixo carbono, afirma em entrevista o presidente da International Hydropower Association, Roger Gill. Elas são a melhor fonte para dar conta da entrada de grandes volumes de energia variável – como as provenientes de solar e eólica – que exigem energia firme para os momentos em que não houver vento ou sol.

O executivo vai além e afirma que a sociedade deve considerar usinas com capacidade de reserva de água. “É preciso reconhecer o valor de usinas com grandes reservatórios de armazenamento, porque elas podem prover a flexibilidade necessária para o sistema operar nesse novo mix com fontes intermitentes”, argumenta.

Ele também argumenta que as usinas hidrelétricas reversíveis – usinas com bombeamento de água armazenada – serão uma contribuição importante para a matriz de energia renovável do futuro e o Brasil deve avaliar as oportunidades para o desenvolvimento de energia hidrelétrica bombeada para apoiar outras energias renováveis variáveis.

A organização que preside não tem fins lucrativos e conta com membros em mais de 120 países. O foco da IHA é fornecer informação confiável e orientações para os tomadores de decisão em hidreletricidade sustentável. Um dos modos de fazer isso é por meio das Ferramentas de Sustentabilidade Hidrelétrica, que ajudam orientar empresas de energia a construir usinas sustentáveis usando boas e melhores práticas ao redor do mundo.

As usinas de Santo Antônio e Jirau, ambas no rio Madeira, em Rondônia, passaram pela avaliação de sustentabilidade da ferramenta. “Não importa se as hidrelétricas são grandes ou pequenas, mas elas têm de ser sustentáveis”, avalia o executivo.

Na entrevista abaixo, Roger fala sobre o papel das hidrelétricas na transição energética, novas tecnologias, oportunidades e desafios para essa centenária fonte de energia cumprir seu papel na transição energética.

hidreletrica

Como as hidrelétricas contribuem para a transição energética?

A energia hidrelétrica por si só já contribui de forma significativa para a transição energética para uma economia de baixo carbono pois é uma fonte renovável. E ela agora tem um papel ainda mais relevante, se você considerar a entrada de grandes volumes de energia variável, proveniente de usinas eólicas e solares. Ou seja, a geração hidrelétrica viabiliza que você tenha um mix renovável de energia.

O Brasil já tem uma grande capacidade hidrelétrica, podemos dizer que o país já está preparado para isso?

No Brasil, as usinas hidrelétricas ainda podem ser modernizadas e devem ser flexíveis o suficiente para garantir a entrada desse mix renovável como grandes volumes de energia variável. Mas a decisão, tanto de construção de novas plantas quanto de modernização, têm de ser tomada agora, pois há um tempo de maturação para os projetos.

Como vencer as resistências para a construção de hidrelétricas no país?

O Brasil precisa reconhecer o valor de ter hidrelétricas, especialmente aquelas com grande capacidade de armazenamento de água. Principalmente, se você levar em conta a entrada de outras fontes no mix energético.

Usinas com grandes reservatórios são justamente as que são alvo de resistências…

Países como o Brasil têm um conhecimento acumulado muito grande na construção de hidrelétricas.  Nos últimos 20 anos, especialmente, a indústria, em conjunto com a comunidade internacional, organizações financeiras e agências governamentais investiram muito tempo em definir as melhores práticas para a construção de hidrelétricas. Portanto, é preciso investir tempo e dinheiro em garantir que essas melhores práticas sejam implementadas.

Quais são essas boas e melhores práticas?

Na IHA, desenvolvemos o que chamamos de ferramentas de sustentabilidade da energia hidrelétrica. Elas definem e medem a sustentabilidade, fornecendo uma linguagem comum para permitir que governos, sociedade civil, instituições financeiras e o setor hidrelétrico discutam e avaliem questões de sustentabilidade relacionadas a esses ativos.

Quais são essas ferramentas?

São três ferramentas que se complementam. Temos as Diretrizes de Sustentabilidade da Energia Hídrica sobre Boas Práticas da Indústria Internacional (HGIIP), o Protocolo de Avaliação de Sustentabilidade da Energia Hídrica (HSAP) e a Ferramenta de Análise de Lacunas de Sustentabilidade da Energia Hídrica ESG (HESG). Por exemplo, aplicamos a HSAP nas hidrelétricas de Santo Antonio e Jirau.

Como funcionam essas ferramentas aplicadas nessas usinas?

Existe um documento chave que é o HGIIP, que define os processos e resultados que constituem as boas práticas internacionais da indústria. O HSAP mede o desempenho em comparação com as boas práticas básicas definidas e as melhores práticas comprovadas, permitindo que os projetos avaliem seu desempenho de forma abrangente. E o HESG pode ser usado para verificar lacunas em relação às boas práticas em tópicos ambientais, sociais e de governança relevantes, com um plano de gestão associado.

Você acha que a expansão hidrelétrica no Brasil então deve vir com usinas de grandes reservatórios?

A distinção em relação ao tamanho das hidrelétricas não é muito útil para o debate. Precisamos garantir que as hidrelétricas sejam sustentáveis, por isso a importância das ferramentas de sustentabilidade hidrelétrica. Por exemplo, se elas atingem áreas indígenas ou como elas lidam com a biodiversidade local. Ou mesmo se as pessoas no entorno estão confortáveis em ter uma usina com um grande lago.  É preciso que haja hidrelétricas grandes e pequenas trabalhando juntas, até mesmo numa configuração híbrida com usinas eólicas e solares. Não é uma única fonte que vai resolver o problema das mudanças climáticas.

Quais são as inovações mais importantes no segmento de hidrelétricas?

Uma inovação significativa foi a digitalização. A maior parte das usinas construídas nos anos 60 e 70 tem controles analógicos. Hoje há sistemas de controle totalmente digitais que podem ajudar as hidrelétricas com a flexibilidade necessária para atuarem num sistema com fontes intermitentes, utilizando ferramentas de analytics a partir dos dados obtidos na operação das usinas, gerando insights e recomendações para o operador do empreendimento.

Você falou que as hidrelétricas precisam de flexibilidade para lidar com a entrada de outras fontes, como funciona isso?

A energia hidrelétrica fornece uma fonte de energia despachável de baixo carbono que permite aos operadores do sistema de energia equilibrar o fornecimento com a demanda e manter a frequência e a tensão da rede elétrica estáveis. Quantidades maiores de energias renováveis variáveis, como eólica e solar, no sistema de energia aumentarão a demanda por serviços flexíveis e confiáveis.

A IHA faz parte de um consórcio de 19 organizações na Europa que desenvolveu um projeto de 18 milhões de euros financiado pela UE denominado XFLEX HYDRO. Ela está testando um conjunto de tecnologias de energia hidrelétrica, como controles inteligentes, sistemas aprimorados de turbina de velocidade fixa e variável, bem como um híbrido bateria-turbina. O roadmap do projeto prevê, até 2023, a demonstração e validação dos resultados em sete unidades pela Europa. Ela irá também desenvolver uma metodologia e ferramentas para levar as tecnologias às hidrelétricas europeias mas tem relevância para outros mercados.

Turbinas de velocidade variável bombeadas podem ser aplicadas no Brasil?

As usinas hidrelétricas reversíveis terão uma importante contribuição para a matriz de energia renovável do futuro. A avaliação das oportunidades para o desenvolvimento de energia hidrelétrica bombeada no Brasil deve prosseguir com urgência.

Essas turbinas de velocidade variável são mais caras e complexas, mas têm a habilidade de entregar a flexibilidade necessária para o novo sistema elétrico.

Qual a importância de viabilizar novas tecnologias hidrelétricas no contexto da transição energética?

É preciso lembrar que as hidrelétricas fornecem não apenas energia, mas também uma série de benefícios que vão além da geração, com controle de enchentes de rios, armazenamento de água potável, serviços auxiliares para manter estáveis a frequência e a tensão da rede elétrica, entre outros. É importante lembrar que a questão do clima não sairá do radar e que as hidrelétricas são parte da solução nessa jornada rumo a uma economia de baixo carbono. Mas, devido aos longos prazos envolvidos em projetos hidrelétricos novos e de modernização, decisões de investimento precisam ser urgentemente tomadas com antecedência para garantir que cumpramos as metas de mudança climática para 2030 e 2050 e as usinas hidrelétricas cumpram seu papel na transição energética.