Por Redação em 05/11/2020

Economista pela UFMG, mestre em Economia Industrial pela UFRJ e doutor em Economia Aplicada pela Universidade de Grenoble na França, Edmar de Almeida é professor do Instituto de Economia da UFRJ e um dos especialistas mais requisitados pelo setor de energia no Brasil. Em entrevista exclusiva ao Além da Energia, Almeida fala sobre transição energética, o ritmo das transformações e alerta: aqueles que veem a transição energética como uma ameaça estão equivocados. “Ela vai acontecer, já está acontecendo, mas não ameaça o setor de petróleo”, avalia. “Não há incompatibilidade em desenvolver nosso mercado de oleo e gás”, afirma.

Em setembro, um grupo de economistas do qual você faz parte, lançou o site Ensaio Energético (https://ensaioenergetico.com.br/). Qual a ideia?

O site é feito por economistas, é uma plataforma para a difusão do conhecimento científico sobre os mercados de energia, mas a ideia é que ele seja aberto para especialistas de todos os setores.

O viés econômico no setor de energia está mais forte?

Sim. A área de energia sempre foi dominada pela engenharia. Mas o setor mudou. Em uma economia aberta, com todas as questões de preço, competição, novos modelos de negócios, um economista tem uma posição privilegiada de análise. O setor de energia é uma área de atuação cada vez maior para os economistas.

Como o economista vê o debate sobre transição energética?

A questão da transição energética se tornou um fato muito importante de responsabilidade social das empresas. Antes se pensava na pobreza, no impacto local etc. Essa dimensão de responsabilidade social foi só aumentando nos últimos anos. A sociedade começou a cobrar que as empresas não sejam só um vetor de lucro. O tema entrou na agenda da sociedade e dos governos e não é mais uma escolha para as empresas. Estamos vivendo um momento histórico. É uma questão que está consolidada e é irreversível.

E o conceito de ESG?

Não acho que ESG seja uma moda, como alguns dizem. Muitas empresas têm hoje a percepção de que existem problemas estruturais na sociedade que precisam ser enfrentados. Que, até mesmo por questões de sustentabilidade dos negócios, é preciso ética. São questões que não são, necessariamente, do campo da economia. O problema da mudança climática é tão sério quanto outros que precisam ser resolvidos como as questões de gênero e a diversidade.
Você não consegue fazer negócios ou governar ignorando isso. Quem não estiver hoje alinhado com esses princípios éticos modernos não é bem visto. Não é uma questão de gostar ou não gostar. Não é uma questão de escolha. Ou se engaja ou fica para trás.

O volume de investimentos em projetos de petróleo e gás no Brasil torna, de alguma forma, o país incompatível com a transição energética?

Não. Aqueles que veem a transição energética como uma ameaça estão equivocados. Ela vai acontecer, já está acontecendo, mas não ameaça o setor de petróleo. O petróleo pode ser explorado, se o país tiver uma política energética adequada, que incentive, por exemplo o uso de energias limpas no setor de transportes, e que não aumente e eventualmente até diminua o consumo de diesel no país.
Não há incompatibilidade em desenvolver nosso mercado de óleo e gás. A demanda vai continuar crescendo por um tempo e depois vai diminuir lentamente.
O petróleo ainda será o maior mercado de energia durante algumas décadas, continuará a ser um bom negócio. O business de petróleo não vai acabar, mas vai se tornar mais seletivo. Não é qualquer petróleo que vai se viabilizar economicamente.
Quem tem óleo de qualidade e custo basto vai se tornar o mercado do futuro e o pré-sal se encaixa perfeitamente nessa característica, até pelo nível de emissão de gases, abaixo da média mundial.

petroleo
E a ideia de utilizar a renda do petróleo para financiar a transição energética? Ainda vale?

Essa ideia envelheceu. É uma ideia ultrapassada. Até porque as fontes renováveis já são suficientemente competitivas. Não precisamos mais subsidiar as renováveis. Independente do setor de petróleo teremos um futuro com cada vez mais renováveis, com uma sinalização maior para a fonte solar.

É possível vislumbrar qual será o ritmo de transformação?

Difícil. Nos últimos anos foram quebrados vários paradigmas no setor energético. Não faz muito tempo a bola da vez era o shale gás, o pré-sal, se falava em captura de carbono, não se falava de hidrogênio. Em cinco anos, tudo mudou.
Agora estamos falando em descabonizar a indústria, o transporte aéreo. O ritmo de transformação é tão grande que será difícil saber qual será o mundo em 2050.

Qual a sua visão do PNE 2050?

O PNE é uma reflexão importante, porque ela orienta a política energética do país. Mas temos esse vício antigo de plano, planejamento. Isso ficou, de certa forma, para trás. Gosto mais do conceito de cenário, outlook, como é preferido lá fora. Previsões. Não determinações. Não tem como fazer plano, ainda mais depois da surpresa que foi a pandemia de covid-19.