Por Redação em 26/11/2020

A transição energética faz parte da jornada da sustentabilidade. A afirmação é de Tatiana Assali, gerente de Programas em Finanças Sustentáveis da SITAWI, organização pioneira no desenvolvimento de soluções financeiras para impacto social e na análise da performance socioambiental de empresas e instituições financeiras.

“Sustentabilidade é uma jornada. Ela é evolutiva. É um processo de transformação e de evolução”, explica, em entrevista exclusiva ao Além da Energia. “E como toda jornada, passa por momentos de avaliação, de realinhamento e de decisões. E algo que, obviamente, depende do timing dos setores econômicos e das empresas”, afirma.

Ela lembra ainda que sustentabilidade quer dizer perenidade, equilíbrio. “Pra todo mundo se sustentar tem que ficar em pé, ser perene. E é um ciclo virtuoso. E, como diz o secretário geral da ONU, Antonio Guterres, não podemos deixar para as próximas gerações o mundo com menos do que recebemos, lembra.

A agenda de sustentabilidade parece viver um boom após a pandemia de Covid-19. Como você vê esse movimento?

É importante ter em mente que sustentabilidade não é uma agenda nova. Os valores ESG são uma agenda que já vêm, há bastante tempo, ganhando força e fazendo história econômica e financeira. As empresas já vêm trabalhando e evoluindo em suas práticas, para atender demandas internas e externas. A pandemia ampliou a preocupação especialmente com o S, de Social, no cenário onde as relações humanas e o impacto social se torna mais exposto. A agenda ficou mais explícita e hoje é debatida de uma forma mais aberta, com o debate crescendo e as empresas se apropriando mais do tema. Com a retomada, depois da pandemia, teremos a oportunidade de colocar o pilar E do ESG, ambiental, de forma mais estruturada no debate, como uma das saídas para a geração de emprego, por exemplo. E a energia, por todas suas utilizações e importância na nossa vida, é um grande vetor dessas mudanças na sustentabilidade.

O Brasil conta com uma agenda de sustentabilidade?

Sim. No Brasil, o setor privado vem movendo a agenda. Mas sustentabilidade depende de união e colaboração. A mitigação de riscos e a busca de oportunidades é essencial para garantir o bem-estar de todos, de forma ampla, e tudo vai depender dessa agenda.

Transição energética e sustentabilidade seguem caminhos parecidos

Houve uma evolução ou uma transformação do olhar sobre a sustentabilidade?

Sustentabilidade é uma jornada. Ela é evolutiva. É um processo de transformação e de evolução. E, como toda jornada, passa por momentos de avaliação, de realinhamento e de decisões. É algo que, obviamente, depende do timing dos setores econômicos e das empresas. O tema saiu dos anexos e foi para a capa dos jornais e das revistas não só pela pandemia, mas por essa jornada de evolução e aprimoramento que vem acontecendo há muitos anos. A era da informação, de comunicação e transparência que vivemos ajudou a dar mais visibilidade ao tema. Mas a jornada da sustentabilidade vai sempre se aprimorar. Pensando no meu tempo de vida, eu não vou estar aqui para ver o final dessa jornada. Quem trabalha nesse setor sempre vai achar que as mudanças poderiam ser mais rápidas. Mas isso é uma ansiedade nossa. Se a gente pensar, regulação tem um tempo, as transformações exigem tempo. Mas a jornada da sustentabilidade está na direção certa.

Então transição energética também seria uma jornada?

Eu acredito que sim. Eu acho que a transição energética é uma jornada da sustentabilidade, inclusive.

Pensando isso de evolução, qual será a evolução do ESG?

Ninguém vai ter a resposta de um milhão de dólares sobre isso. ESG é uma evolução da sustentabilidade, de uma terminologia que já teve vários nomes e que engloba bem-estar social, ambiental, gestão, e governança. Essa é uma agenda que evoluiu muito na Europa e que ganhou velocidade na Ásia e nos EUA. O Brasil sempre seguiu as tendências internacionais. E temos um histórico bastante interessante no país. Na América Latina, o Brasil tem sido precursor, sobretudo do ponto de vista regulatório, com a Resolução 4327/2014 do Banco Central, que fala em política de responsabilidade socioambiental, e que na América Latina foi uma das primeiras e vem sendo usada como referência. A primeira rede internacional do PRI – Princípios para o Investimento Responsável, iniciativa global de investidores que buscam aprimorar e implementar práticas de investimento responsável, foi a do Brasil, por uma demanda dos investidores brasileiros. E, recentemente, a própria Bolsa de Valores brasileira redefiniu seus índices. Dentro do que é possível, empresas, investidores e outros stakeholders do país estão atentos e envolvidos, e temos exemplos de evolução em todas as frentes.

Como você definiria desenvolvimento sustentável?

Desenvolvimento sustentável é o caminho onde todo mundo ganha. Sociedade, governos, empresas e meio ambiente. Por isso, fala-se tanto, hoje, no âmbito das empresas, em objetivos pré-financeiros, ou indicadores ESG. Sustentabilidade quer dizer perenidade, equilíbrio. Para todo mundo se sustentar, o sistema tem que se sustentar, ser perene. E é um ciclo virtuoso. É, como dizia o secretário geral da ONU, Antonio Guterres, não podemos deixar para as próximas gerações o mundo com menos do que recebemos.